Edição 324 | 2019

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24/01/2019 16:36 - Atualizado em 24/01/2019 16:37

Cérebro em treinamento

Di Benedetto, especialista em aprendizagem de idiomas, aponta como aprender outra língua pode ser benéfico para a saúde

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Nosso cérebro tem a capacidade de armazenar para sempre na memória as informações que usamos com frequência. É por isso que quanto mais ouvimos, falamos e escrevemos em uma língua que estamos aprendendo, mais conexões se formam entre os neurônios e esse armazenamento se torna mais fácil. Trata-se de um processo que altera fisicamente o cérebro, aumentando sua massa cinzenta, adiando seu envelhecimento, prevenindo o Alzheimer e ainda torna o indivíduo mais hábil em multitarefas”, explica Bia Di Benedetto, especialista em aprendizagem de idiomas. 

Pesquisadores da Universidade de Northwestern, nos Estados Unidos, concluíram que saber mais de uma língua funciona como uma ‘ginástica’ para o cérebro. O resultado da pesquisa se baseou especialmente na forma como os voluntários bilíngues processavam sons de forma mais eficiente – ou seja, identificavam melhor sons mais relevantes – em ambientes barulhentos. Desta forma, o cérebro se torna mais hábil em se concentrar no que realmente importa e deixa de ‘desperdiçar energia’ com informações desnecessárias.

“A capacidade de falar uma língua existe em todo ser humano (que não tenha alguma patologia da linguagem, obviamente). A língua materna, por exemplo, é aprendida de maneira natural, sem esforços, no núcleo familiar e nas relações sociais. Já a língua estrangeira é aprendida de maneira artificial e, por isso, demanda esforços”, comenta Bia.

Algumas pessoas têm mais facilidade para aprender línguas que outras. E isso ocorre devido a múltiplos fatores. Levando em conta a idade, quanto mais jovens os indivíduos, menos descartados estão os sons das línguas que nos são estranhas. Isso explica porque os jovens têm mais facilidade em aprender línguas do que as pessoas mais velhas. Outro fator que ajuda a determinar essa facilidade é a quantidade de estímulo que recebemos. “O cérebro que está em contato com a língua estrangeira apenas duas horas por semana assimila os sons e significados de maneira muito mais lenta do que aquele que o faz por 10 horas diárias. Por isso, é importante praticar pelo menos 10 minutos por dia, recomenda a especialista.

Idade certa?
Um estudo realizado pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology), dos EUA, apontou que, para um indivíduo adquirir conhecimento gramatical e fluência em um idioma tal qual um nativo é preciso começar a estudar a língua ainda criança, antes dos 10 anos. Segundo a pesquisa, a janela de oportunidade etária para o aprendizado de uma língua privilegia quem começa cedo: após os 10 anos, os adolescentes ainda apresentam boa habilidade para o domínio de idiomas - até os 17 ou 18 anos -, mas, entrando na vida adulta, essa capacidade começa a diminuir.

A pesquisa foi baseada em um teste gramatical realizado com quase 670 mil pessoas de diferentes idades e nacionalidades. Ao analisar os dados, os pesquisadores confirmaram que o aprendizado de gramática de um idioma é mais consistente e efetivo durante a infância.

Os cientistas atribuem isso ao fato de o cérebro ficar menos mutável ou adaptável na vida adulta. “Pode ser uma mudança biológica ou algo social ou cultural”, explica o coautor do estudo e professor de Ciências Cognitivas no MIT, Josh Tenenbaum.

Há quem não concorde
O professor Luiz Fernando Schibelbain, diretor do PES - Positivo English Solution School, do Sistema Positivo de Ensino, ao analisar os dados da pesquisa, acredita que há uma vantagem estatística em começar o aprendizado de uma segunda língua mais cedo. Contudo, ao investigar mais profundamente os números e a questão, Schibelbain identifica que existem muitos indivíduos que começaram a aprender um idioma depois dos 20 anos e superaram falantes nativos.

“Certamente, em média, o aluno mais tardio parece ter uma desvantagem, mas seria impossível?”, questiona Schibelbain. “Certamente, não”, afirma. Segundo o professor, o que acontece é que após os 18 anos, geralmente, a vida das pessoas muda. “Você vai para a faculdade, começa a trabalhar, sai da casa dos pais, encontra ocupações e distrações como namoro, lazer, casamento, enfim, ocupa a sua vida com outras atividades”, explica. Tudo isso gera um impacto na capacidade que o indivíduo tem de estar disponível para o aprendizado. 

Na avaliação do professor, uma criança que inicia o aprendizado de um idioma aos cinco anos de idade - principalmente se estudar num colégio que oferece ensino bilíngue - certamente, terá um tempo de exposição ao idioma muito superior ao de um adulto de 20 anos, por exemplo. “Será mesmo justo comparar a capacidade de aprendizado de uma criança que está em contato com a língua por três a cinco horas por dia com a de um adulto que estuda o mesmo idioma por apenas uma hora diária?”, indaga. Para ele, essa diferença na capacidade de aprendizado muito provavelmente não se deve a alguma mudança na plasticidade cerebral. “Deve-se ao fato de que os adultos não têm tanto tempo disponível para exposição à segunda língua como as crianças”, observa.

Preocupações
A professora e assessora de Língua Inglesa do Colégio Positivo para o Ensino Médio, Patrícia Pallu, acredita que não existe um fator único que seja determinante para avaliar a capacidade de aprendizado do indivíduo em relação a um novo idioma. Com experiência de mais de 30 anos em sala de aula e um mestrado em Educação sobre as dificuldades dos adultos no aprendizado da língua inglesa, Patrícia defende que outros fatores concorrem com o biológico. “É fato que a criança tem mais facilidade para reproduzir o que ouve, o que facilita muito o aprendizado das palavras em outra língua, e isso, com o avanço da idade, vai diminuindo. Mas muitos outros aspectos precisam ser considerados”, afirma Patrícia.

Para a professora, deve-se considerar que a criança, no geral, só tem como responsabilidade e preocupação aprender aquilo que lhe é ensinado. Já o adulto precisa dividir sua atenção entre o aprendizado do idioma, as preocupações com o trabalho e com a rotina doméstica. A criança, normalmente, mantém o aprendizado de forma contínua, enquanto o adulto está sujeito a  contratempos: questões financeiras, desemprego e falta de tempo costumam fazer com que o adulto abandone ou interrompa o estudo. “Tudo isso mostra que não é apenas o fator biológico que pode influenciar na capacidade de crianças, adolescentes e adultos aprenderem”, finaliza.
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