Edição 319 | 2018

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27/07/2018 15:47

Missão: Pai!

Mudanças nas relações sociais tiram os pais do cargo de provedores do lar e convidam os homens a participar ativamente da educação de seus filhos

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Desde os primeiros anos de vida, a criança precisa da presença ativa, dos cuidados, das orientações e do afeto tanto do pai quanto da mãe para desenvolver-se de modo pleno. O arquétipo do pai provedor, frio emocionalmente e não participativo está ficando para trás. “Atualmente, a figura paterna está apropriando-se do que realmente deve ser: presente, participativo da rotina familiar e da vida do filho”, explica a psicóloga, especialista em Saúde Pública e da Família e em Terapia Cognitivo-Comportamental, Lilian Zolet.

Esta mudança se deve pelas transformações sociais, culturais e familiares ocorridas. Com o crescente número de mulheres ingressando no mercado de trabalho e conquistando a independência econômica, surgiram novos arranjos familiares. Nessa redistribuição igualitária dos papéis dos progenitores, o papel do pai tem sido o principal alvo de transformação. “O pai está buscando dividir as responsabilidades do lar, arrumar o filho para ir à escola, fazer o almoço, auxiliar nas tarefas escolares, orientar quanto aos comportamentos inadequados, dar afeto e envolver-se nas brincadeiras. Essa participação ativa é essencial para que a criança construa um modelo positivo sobre si mesma, os outros e o mundo. É a partir da interação com o pai que a criança começa a descobrir a relação com as demais pessoas e a desenvolver segurança para explorar este mundo novo”, garante a especialista.

Vida escolar
E se, antes, a responsabilidade de acompanhar a educação do filho era apenas da mãe, a constante evolução dos núcleos familiares está fazendo a figura paterna se aproximar cada vez mais da escola de seus filhos. Para o professor de História do Curso Positivo, Daniel Medeiros, na medida em que fica mais enraizada a ideia de que mulheres e homens têm direitos e obrigações iguais, aumenta a percepção de que o homem tem responsabilidades com os filhos que não se limitam a prover, mas também cuidar e estar presente em suas atividades diárias. “Essa história de que o pai ‘ajuda’ traz a ideia implícita de que o papel pertence à mulher e ele ‘dá uma mão quando pode’. Isso está sendo superado nas sociedades modernas”, afirma Medeiros.

Os pais de hoje estão encarando o desafio de acumular vários papéis dentro das normas da paternidade: precisam prover, cuidar, nutrir, transmitir valores, proporcionar diversão e também se envolver com a vida escolar do filho. A professora de psicologia da Universidade Positivo, Maísa Pannuti, afirma que o envolvimento cada vez maior do pai traz benefícios para a criança: mostra que existe mais de um modelo de família além daquele padrão tradicional onde a mãe é responsável pelos cuidados e educação. E ainda oferece ao pequeno a oportunidade de ter contato com perspectivas diferentes de uma mesma situação, já que homens e mulheres - pais e mães - costumam pensar e ter opiniões variadas sobre um mesmo assunto. No caso de pais separados, a diretora pedagógica da Editora Positivo, Acedriana Vicente, explica que a nova forma de gestão de filhos - a guarda compartilhada - tem feito o pai estar muito mais presente e, portanto, tendo que assumir responsabilidades junto à vida escolar da criança.

Referência para a vida
A psicóloga Lilian Zolet explica que os pais são os modelos de referência para a criança. Quando os papéis de mãe e pai são bem trabalhados e divididos, os efeitos são altamente benéficos para o desenvolvimento cognitivo, afetivo e social da criança. Entretanto, quando há ausência emocional e negligência educacional tanto da figura paterna quanto da materna, a sensação de não ser amado e desejado se instala na cognição da criança, podendo levar a grandes prejuízos emocionais e interpessoais quando não tratados.

“Quando a criança é rejeitada pelo pai, ela pode se sentir mais insegura e até agressiva. Este repertório de comportamento é refletido em sala de aula através das dificuldades de concentração e baixo rendimento, assim como na sociedade por meio da maior probabilidade de envolvimento com drogas, brigas e infrações sociais. Em contrapartida, o pai que compensa sua ausência superprotegendo o filho, ignorando os comportamentos errados e recompensando o mau comportamento, reforça as posturas inadequadas da criança. O filho, por sua vez, aprende que os outros devem servi-lo, tornando-se um verdadeiro imperador doméstico”, enfatiza.

Tais crianças mandam em casa, definem a comida que deve ser servida, o programa de TV, mentem e agridem as pessoas de modo frequente, tanto na casa quanto na escola. Esses repertórios de comportamentos agressivos e hostis ficaram conhecidos pelos profissionais da área da saúde como “Síndrome do Imperador”, devido a semelhança das atitudes com a dos imperadores.

Modelo de pai
Mas, então, qual é o modelo de pai ideal? “É consenso pelas diversas abordagens da Psicologia, que o pai autoritário, ou seja, aquele que apenas manda, grita e não interage emocionalmente com o filho, não é o ideal, já que a criança tende a ficar com medo da figura paterna e não adquire o respeito, e sim, o afastamento emocional”, define Lilian. “O pai permissivo, aquele que não consegue dizer “não”, tente a ceder ou aceitar os erros para evitar conflitos. Também há o pai indiferente, aquele que nunca tem tempo para participar da vida da criança e da rotina da casa”, completa.
Entretanto, há pais que “vestem a camisa” e se tornam recíprocos na educação, ou seja, compartilham as tomadas de decisões, orientam os filhos, participam ativamente da vida e da rotina da criança, sendo verdadeiros exemplos positivos para a criança. “Esse é o modelo ideal de pais!”, garante.

É a partir da complementariedade do pai e da mãe na educação do filho que ocorre a profilaxia ou o reajuste dos comportamentos inadequados da criança. Cabe ressaltar que a figura paterna deve ser utilizada para dar orientações seguras e gerar confiança e autonomia para o filho.
“Com isso, a criança terá um modelo de crescimento saudável com uma base educacional assertiva e afetiva. Os efeitos deste modelo de educação compartilhada entre pai e mãe são o alicerce para a estruturação de um futuro adulto saudável’, finaliza a especialista.

Para ser um pai mais presente
*Participe da rotina do seu filho. Faça as refeições em família. Converse e fale sobre os seus sentimentos, conte histórias, auxilie nas atividades escolares.

*Colabore nas decisões que envolvem seu filho: escola, médico...

*Seja firme diante das birras. Ensine ao seu filho o jeito certo de pedir e fazer. Administre as suas emoções e jamais aja com raiva.

*Escute atentamente seu filho. Observe o que ele sente e fala.

*Converse com o seu filho. Sempre mantenha um diálogo aberto e não um interrogatório.

*Observe as habilidades e reforce o esforço da criança.

*Seja carinhoso. Jamais use palavras que diminuam a autoestima do seu filho.

*Brinque. Tenha momentos de diversão com seu filho. O mais importante é a qualidade do tempo dedicado a criança.


“Quando a criança é rejeitada pelo pai, ela pode se sentir mais insegura e até agressiva”

“Os pais de hoje estão encarando o desafio de acumular vários papéis dentro das normas da paternidade”


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Camelo Tatuapé
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