Edição 310 | 2017

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26/09/2017 16:15

A escola dos Nativos Digitais

Instituições precisam se adaptar e transformar os professores em mediadores do conhecimento

Divulgação
O conceito de “nativos digitais” foi inventado e popularizado pelo educador e pesquisador Marc Prensky, em artigo publicado em 2001, para descrever a geração de jovens nascidos a partir da disponibilidade de informações rápidas e acessíveis e a tecnologias como videogames, internet, telefone celular, MP3 e iPod. Outro termo criado por Prensky define as gerações que nasceram antes da internet, as quais ele denominou “imigrantes digitais”. A principal diferença entre os dois grupos é que o primeiro tem dificuldade de imaginar o mundo sem internet enquanto o segundo teve que adaptar sua vida à chegada dela.

Hoje, os nativos digitais ocupam quase todas as cadeiras escolares, do Ensino Infantil ao Superior, contudo, ainda muito pouco tem sido feito para adaptar os professores, que pertencem ao grupo dos imigrantes digitais, à essa nova realidade e aos desafios que a geração atual oferece dentro e fora de sala de aula. E, na tentativa de se adequar a essa nova geração, muitas instituições se propõem a adquirir equipamentos e aparatos tecnológicos, entretanto se esquecem que eles só funcionam quando apoiados pela pedagogia, pelos professores que os operam. Para alguns, falta entender que é preciso que a forma de ensinar se atualize antes mesmo de introduzir qualquer outra ferramenta ou tecnologia nas salas de aula.

Para o diretor geral da Editora Positivo, Emerson dos Santos, o desafio atual é garantir que o processo de aprendizagem seja mais efetivo, “até porque educar não significa apenas transmitir conhecimento. Escola e professores devem servir como um guia norteador que levam o aluno ao aprimoramento de suas capacidades intelectuais, sociais e políticas, promovendo assim o desenvolvimento humano. E a evolução da Educação deve seguir o princípio de que o aprendizado é construído a partir da realidade do aluno. O interacionismo valoriza a bagagem que cada indivíduo traz de seu cotidiano e, a partir da percepção da realidade que ele já possui, estimula a busca do conhecimento. O processo educativo torna-se mais dinâmico, mais amplo e mais adequado ao mundo atual”, destaca.

No conceito do interacionismo, não é possível oferecer ao aluno a aprendizagem de conteúdos conceituais sem considerar seus modos de agir e pensar, suas crenças e valores. “O que nos leva a concluir que não há separação entre vida e Educação. Se enxergarmos para além da figura de cada aluno, a importância da formação do cidadão, vemos que é preciso prepará-lo para muito além do vestibular e ingresso em uma faculdade. Vencida a etapa do Ensino Superior, existe uma vida inteira a ser vivida, e, quanto mais preparados estiverem, mais condições esses futuros cidadãos terão de corresponder às necessidades e expectativas do mercado de trabalho e da sociedade, podendo contribuir significativamente no processo de transformação do mundo”, enfatiza Santos.

Diante de tão complexos desafios, o perfil do profissional da Educação foi profundamente alterado. Hoje, o professor deixou para trás a função de mero transmissor de conhecimentos para se tornar um orientador, um estimulador que leva os alunos a construírem seus conceitos, valores e habilidades. Novas linguagens e ferramentas tecnológicas ajudam o educador nesse processo ao aproximar a escola do mundo do aluno. “O mundo digital e as redes sociais ganharam tanta relevância no processo de ensino a ponto de educadores passarem a atuar como mediadores, gerenciando conteúdos e ferramentas a fim de melhor orientar seus alunos na hora de consumir informação”, garante.

“Nossa sociedade exige mudanças que atendam às suas necessidades. O ser humano que se formava anos atrás certamente será muito diferente daquele que sairá da escola ou da universidade nas gerações futuras. Durante muito tempo, esperava-se do indivíduo que ele apenas reproduzisse aquilo que ouviu e aprendeu. Hoje, é necessário educar pessoas para que se transformem em cidadãos com senso crítico e capacidade de interagir com o cotidiano a sua volta. É por isso, e para isso, que especialistas na arte de ensinar avançam firmes e confiantes rumo ao futuro, formando profissionais para profissões que ainda não existem e cidadãos para um mundo melhor”, conclui o diretor da Editora Positivo.

Nova realidade
Aprender a linguagem dos computadores é tendência internacional na formação de cidadãos preparados para lidar com as inovações tecnológicas. Compreender a programação dos computadores, robôs e dispositivos digitais são fundamentos que têm se igualado a outros já consolidados, como dominar um outro idioma.

Diante da necessidade cada vez mais latente de compreender esses novos conceitos e aplicá-los em ambientes profissionais e até acadêmicos, torna-se necessário instituições de ensino básico inserirem em seus currículos o chamado pensamento computacional, nova disciplina que deve englobar tanto o aprendizado em novas tecnologias como o desenvolvimento de habilidades socioemocionais. “Ou viramos criadores ou ficamos na era da informática, sendo meros usuários de programas prontos”, opina um dos diretores da Mind Makers, instituição voltada para o desenvolvimento do pensamento computacional, Paulo Alvim.

Embora estejam acompanhando essa evolução, muitos pais ainda sentem dificuldade em entender como as frequentes transformações tecnológicas podem ser incorporadas pedagogicamente por seus filhos. Por isso, é importante se manter atualizado e, além de entender, vivenciar o ensino da programação de computadores, atividades maker, robótica e também da construção de projetos. Só isso vai fazer com que os pais, os imigrantes digitais, possam acompanhar seus filhos no dia a dia.

O mundo mudou
Mas, não foram só os meios digitais que avançaram, as relações sociais também se transformaram ao longo do tempo, abrindo caminho para as mulheres entrarem no mercado de trabalho cada vez mais cedo e para a formação de novas estruturas familiares onde ambos os genitores trabalham e, em muitos casos, as avós ainda estão ativas. Isso significa que as escolas também tiveram que se adaptar a essa nova demanda e passaram a oferecer cada vez mais opções para os pais que buscam lugares diferenciados para matricular os filhos, e uma forma de amenizar a quantidade de horas que passam longe deles.

As comparações, a necessidade de expor não só sua vida mas os méritos dos filhos nas redes sociais e a ansiedade pela alfabetização cada vez mais precoce também são consequência dessas novas relações sociais que impõem que a rotina fique ‘escancarada’ na internet, expondo sua intimidade, suas fraquezas e gerando uma competição constante para ter “a criança mais prodígio”. 

Apesar das mudanças nas relações sociais, algumas preocupações não diminuíram com o passar dos anos. Em alguns casos, até se intensificaram. Como exemplo temos o início da vida escolar. Fica difícil para algumas mães entenderem que os filhos irão crescer. Conforme se desenvolvem, ganham autonomia e independência, sendo comum o ‘coração de mãe’ ficar dividido: de um lado a gratidão por contribuir para o crescimento e do outro a percepção de que cada vez mais vão se desprender e seguir em frente. De acordo com a psicóloga do Hospital e Maternidade São Cristóvão, Yara Satie dos Santos, o início da vida escolar da criança é um desses momentos impactantes para uma mãe. “Os filhos estão começando na escola cada vez mais cedo, em função de fatores sociais, familiares e econômicos, por isso muitas mães relutam em aceitar e permitir que seus filhos tenham independência emocional”, analisa.

Para viver essa nova etapa de maneira menos conflituosa, o ideal é a família incentivar a autosegurança nas crianças para enfrentamento de desafios desde bebês, assim se sentirão capazes de resolver sozinhos novas situações. “Não é raro crianças demonstrarem recusa ao ambiente escolar, chorarem ao se despedirem e serem encontradas sorridentes na saída da escola. Tudo faz parte do período de adaptação. Os pais não devem induzir respostas do filho como forma de justificar a própria recusa de vê-lo bem com outras pessoas. Somente quando maiores é que conseguem se expressar e dizer o motivo de não gostarem da escola, cabendo aos pais analisar o que realmente está acontecendo”, explica a especialista.

Segundo Yara é essencial que a escolha da escola leve em consideração o perfil da criança. “É um momento de muitas dúvidas e preocupações, então é importante visitar várias instituições, solicitar indicações aos mais próximos, priorizar locais de fácil acesso para que a criança não se canse no percurso da casa ao colégio, que o ambiente seja seguro, agradável e adequado à faixa etária do filho”, aconselha.
  
Importante lembrar que cada escola tem formas diferentes de planejar o início de novos alunos. Algumas possuem um período de adaptação, em que é permitido que o adulto participe da rotina e gradativamente vá permanecendo menos tempo com a criança. Outras não oferecem essa possibilidade. “Cabe aos pais preparem os filhos para reconhecerem suas capacidades para o enfrentamento do novo. Confie nos exemplos e ensinamentos oferecidos a eles. O amor que as crianças têm pelos pais não mudará mesmo que elas sejam independentes”, garante a psicóloga.

Educação emocional
Se por um lado inserir a tecnologia em sala de aula e adaptar o ensina às novas gerações é um desafio, por outro, orientar e formar cidadãos emocionalmente estáveis que conseguem se colocar no lugar do outro, aceitar e integrar as diferenças pode ser um trabalho ainda mais árduo.
Durante muito tempo se acreditou que as emoções mais atrapalhavam do que ajudavam. Dizia-se que para se tomar uma boa decisão a pessoa deveria ser racional, manter a mente fria e não se deixar levar pelos sentimentos. Hoje se sabe que as emoções são tão fundamentais para tomadas de decisões, quanto o são o sucesso pessoal e profissional. Mas se não é correto eliminar as emoções, tampouco o é deixar que elas dominem. Para a fundadora da Teraplay, Cristiane Carvalho, o segredo reside em entender e aceitar as emoções, sem, no entanto, deixar-se cegar por elas. “Todos conhecemos adultos que derrapam quando se trata de controle emocional, então, que tal educar emocionalmente as crianças para que elas enfrentem os desafios e superem com mais facilidade os percalços da adolescência e da vida adulta?”, questiona.

O mundo atual apresenta uma série de desafios para pais e educadores. “Nunca as crianças tiveram tanto acesso às informações e ao conhecimento ao mesmo tempo em que nunca estiveram tão irritadas, resmungonas, entediadas, raivosas e estressadas. Atualmente, muitas dessas crianças passam mais tempo olhando para telas de computadores, tablets e celulares do que para seus pares e familiares, mas, infelizmente, onde o assunto saúde ou inteligência emocional só é levantado quando a pessoa entra no mercado de trabalho. Lá, chega um ponto em que o RH chama a pessoa e diz que ela não sabe lidar com a pressão do trabalho, que não tem inteligência emocional...Mas ninguém aborda isso com as crianças, o que é necessário e fundamental. Hoje podemos observar um movimento bem pequeno em torno disso, mas o esperado é que se invista ainda mais nessa área”, enfatiza Cristiane.

A fundadora da Teraplay explica que é necessário introduzir isso nas escolas e que elas abordem o assunto de forma contínua e estruturada. “A educação emocional melhora a interação entre os alunos e entre alunos e professores. As crianças passam muito tempo dentro da escola e se o conteúdo transmitido for meramente acadêmico, a criança sai despreparada para o mundo. Investir em educação emocional adequada influencia positivamente na educação acadêmica dela e no sucesso pessoal e profissional futuro”, detalha.
Tudo isso é possível porque a educação emocional capacita a reconhecer, avaliar, expressar e gerir as emoções; conhecer a si mesmos e se valorizar; se enxergar como parte do grupo, se responsabilizando e se sensibilizando pelos outros; avaliar o quanto suas emoções e sentimentos influenciam seus comportamentos; ter resiliência e perseverança frente aos desafios; reconhecer e vivenciar os valores, as virtudes e a ética; reconhecer a importância do bem-estar corporal para o bem-estar mental e vice-versa; não se sentir perdido com a quantidade de estímulos crescentes do mundo atual.

A especialista separou algumas dicas para trabalhar o lado emocional com as crianças. Confira:

1. Fale sobre as emoções. Jogos, filmes, revistas e as situações vividas no dia a dia apresentam oportunidades para conversar com as crianças, chamando a atenção para a expressão facial e o tipo de comportamento que acompanha cada uma delas.

2. Seja o modelo. Os pais sempre desejam que seus filhos sejam comportados e obedientes. Mas é bom ficar atento. Se os pais gritam, as crianças aprendem a gritar. Se xingam, elas aprendem também a xingar. Se, por outro lado, falam com respeito e não mentem, elas seguirão seus passos. Claro que crianças podem muitas vezes tirar qualquer um do sério, mas lembre-se de “colocar sua máscara de oxigênio antes” de resolver a situação, ou seja, se acalme para que a criança possa se espelhar de forma positiva em quem a educa.

3. É muito mais fácil para a criança falar sobre os sentimentos dela quando os pais conseguem falar sobre seus próprios sentimentos, reconhecem as emoções dos outros (inclusive a dela) e conversam com ela sobre o que outras pessoas devem estar sentindo em uma dada situação.

4. Deixe para conversar sobre emoções e sentimentos quando tudo está calmo. Embora seja tentador, não adianta discutir essas questões quando um problema surge e a criança já está chorando, gritando ou esperneando. O ideal é abordar o assunto de forma constante, aproveitando as diversas situações que se apresentam no dia a dia. Quando o estresse já se instalou e a criança já perdeu o controle ou está prestes a perdê-lo, o ideal é oferecer aceitação, acolhimento e proteção. Isso não significa aceitar o mal comportamento, mas sim aceitar a emoção que o disparou.

5. Deixar claro que ninguém é mau por ter emoções ruins de forma que até essas devem ser aceitas. Muitos estudiosos concordam que existem seis emoções básicas: alegria, tristeza, medo, surpresa, raiva e nojo. Por razões evolutivas, existem mais emoções desagradáveis do que agradáveis, ou seja, mesmo aquelas consideradas ‘inconvenientes’ são necessárias. Emoções que são empurradas para baixo do tapete podem retornar a qualquer momento de forma abrupta. Além disso, muitas vezes minimizamos o que a criança sente na tentativa de fazê-la sentir-se bem mais rápido, mas isso só faz a criança achar que sua emoção é errada. Aposente esse hábito e da próxima vez que seu filho ralar o joelho e vir chorando até você, não diga que não foi nada.

6. As emoções são transitórias e podemos sentir mais de uma ao mesmo tempo. Emoções disparam reações em nosso corpo sobre as quais não temos controle algum. Elas surgem após percepções dos nossos sentidos e, antes mesmo que possamos pensar a respeito, o sistema nervoso autônomo pode produzir uma secura na boca no caso de medo, por exemplo. Explicar que as emoções passam como as nuvens e oferecer apoio vai aumentar o vínculo e a confiança entre você e a criança.

7. O cansaço pode dificultar
o manejo das emoções. Isso ocorre porque todas as células do nosso corpo precisam de energia para funcionar e as células cerebrais não são diferentes. Então, não espere um controle emocional primoroso quando as crianças estão cansadas. Vale mais oferecer um momento e um local para que as energias sejam recuperadas
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