Edição 294 | 2016

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31/05/2016 08:53 - Atualizado em 31/05/2016 09:08

Questão de peso

Crescimento da Obesidade entre crianças e adolescentes pode ser resolvida com a mudança de estilo de vida de toda a família

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Hambúrguer, cachorro-quente, batata frita, refrigerante e doces. Fica difícil resistir a tantas tentações, ainda mais quando somos crianças. Porém, essa deliciosa e perigosa combinação de produtos açucarados e industrializados tem elevado os índices de Obesidade infantil no Brasil e expondo os pequenos a riscos de gente grande. Baixa auto-estima, problemas ortopédicos, infecções respiratórias e de pele e até a possibilidade de se desenvolver uma Cirrose Hepática são alguns dos prejuízos que o excesso de peso pode causar.
“As crianças estão desenvolvendo doenças que costumavam aparecer apenas na fase adulta ou Terceira Idade. A Obesidade causa Diabetes tipo 2, aumento do colesterol ruim (LDL) que pode causar entupimento das artérias precocemente e pressão alta. Estes fatores combinados podem levar ao infarto ou derrame em fases produtivas da vida. Problemas articulares também comprometem a qualidade de vida da criança que não consegue acompanhar os colegas nos exercícios físicos. Além dos transtornos alimentares comuns entre as meninas que, na esperança de emagrecerem rapidamente, começam a adotar práticas extremamente perigosas como a bulimia e a anorexia, tão presentes em sites que ensinam o passo-a-passo. Os meninos ‘pegam pesado’ na academia, geralmente sem a supervisão de um professor que entenda suas limitações, e sofrem lesões que podem afastá-los definitivamente dos exercícios”, detalha a nutricionista Renata Giudice.
Dados da Organização Pan-Americana da Saúde apontam um aumento de 240% na incidência de Obesidade infanto-juvenil no Brasil nos últimos 20 anos. “Esse é um dos mais sérios problemas de saúde pública atualmente, tornando-se um grande desafio para pais, educadores e pediatras”, ressalta a coordenadora da Endocrinologia Pediátrica do Hospital São Luiz - Unidade Anália Franco, Aline Dantas Costa Riquetto.
Ela explica que a Obesidade é uma doença multifatorial, ou seja, que ocorre por uma série de fatores associados. “A maioria dos casos está associada a fatores ambientais, como sedentarismo e ingestão excessiva de alimentos hipercalóricos. Distrações que limitam a atividade física na infância, como assistir televisão ou jogar videogame em excesso, contribuem fortemente para o ganho excessivo de peso. Além disso, o aumento do índice glicêmico em muitos alimentos industrializados, bem como o aumento do consumo de alimentos pré-preparados ou fast foods favorecem seu surgimento nas crianças. Outro fator de risco para a Obesidade é a presença de história familiar. Estudos demonstram que uma criança cujos pais não são obesos tem 9% de chance de se tornar obesa, enquanto que, quando um dos pais tem o problema, essa chance aumenta para 50%. Se ambos os genitores são obesos, esse risco sobe para 90%. Nesses casos, há a influência não apenas dos fatores transmitidos geneticamente, mas também do ambiente e hábitos familiares inadequados”, esclarece.
O estilo de vida da nova geração, que passa muitas horas em frente as telas e equipamentos eletrônicos também é resultado do “medo da violência e da dupla jornada de trabalho das mães que fazem com que as crianças fiquem confinadas, muitas vezes sozinhas, sem oportunidade de gastar a energia consumida com estes alimentos extremamente calóricos”, completa Renata.

"A Obesidade é um importante fator de risco para as doenças cardiovasculares. Além disso, costuma estar associada a Hipertensão Arterial, Dislipidemia e Diabetes"
Dra. Aline Dantas Costa Riquetto - Coordenadora da Endocrinologia Pediátrica do Hospital São Luiz - Unidade Anália Franco


A constatação
O diagnóstico de Obesidade é feito pela aferição do peso e estatura do paciente, calculando-se, com esses valores, o IMC - Índice de Massa Corporal. Quando a causa da Obesidade infantil está associada a uma doença, seu tratamento específico deve ser instituído. “Entretanto, no caso da Obesidade exógena, que corresponde à maioria dos casos, é necessária que ocorra reeducação alimentar e incorporação de atividade física na rotina da criança”, recomenda Aline.
A Organização Mundial da Saúde recomenda que crianças e adolescentes entre cinco e 17 anos façam atividade física de intensidade moderada a vigorosa, 60 minutos por dia, todos os dias da semana. “Tais atividades incluem jogos, brincadeiras, esportes e educação física. Para as crianças que não praticam nenhum exercício, realizar atividades por períodos abaixo da meta recomendada já traz benefícios. Por isso, devem ser estimuladas a iniciar por períodos menores até alcançarem o tempo recomendado. Pelo menos três vezes por semana essas atividades têm que ser vigorosas, para fortalecer ossos e músculos. Além de contribuir para a diminuição de sobrepeso e Obesidade, a atividade física traz benefícios como desenvolver músculos, ossos e articulações saudáveis, beneficiar o sistema cardiovascular e melhorar a coordenação motora”, garante a especialista.
A nutricionista Renata chama a atenção para um fator que pode ajudar rapidamente na identificação de sobrepeso: o acúmulo de gordura na região abdominal. “Muitas vezes este distúrbio é visivelmente claro. O pediatra sempre avalia a curva de crescimento da criança e geralmente sinaliza quaisquer alterações. O importante é agir rapidamente, evitando deixar para um momento mais oportuno, já que, muitas vezes o peso só aumenta, dificultando ainda mais uma solução definitiva”, orienta.

Mudança de vida
Nem sempre deixar a criança ou adolescente ‘sozinhos’ nessa empreitada em busca da perda de peso, é funcional. Renata explica que fazer cobranças mas não se envolver nas mudanças geralmente não promove sucesso a longo prazo. “Muitas famílias trazem o adolescente para uma consulta sem se darem conta de que o processo é trabalhoso e exige mudanças para todos”, enfatiza. Há também quem acredite que apenas o fato de não comprar estes alimentos calóricos e industrializados seja o suficiente para evitar o consumo pela criança. “Não é! Pois ela troca lanches com outros colegas na escola ou compra quando está sozinha. O interessante é envolvê-la no preparo de comidas saudáveis. Frequentar feiras e sacolões, ao invés de hipermercados, estimular a curiosidade para alimentos ricos em fibras, vitaminas e minerais.  Vale lembrar que novos sabores, especialmente saladas, verduras e legumes, são aprendidos de acordo com a exposição, ou seja: para gostar de um legume novo é necessário experimentar de cinco a 10 vezes com uma frequência constante. Não se pode desistir de oferecer para a criança, mas a família toda precisa comer estes alimentos diariamente. Combinar um dia para maiores abusos e oferecer recompensas para os progressos costuma dar certo. O difícil é manter a regularidade destas ações. É por isso que o apoio e o incentivo constante dos profissionais é fundamental. Além disso, ler os rótulos dos alimentos contribui para uma noção mais clara de quais alimentos são muito açucarados ou gordurosos”, ensina Renata.
“É importante também que haja nas escolas a conscientização da importância da alimentação saudável e da prática de atividade física”, completa Aline.

"Médico, nutricionista, educador físico e psicólogo podem trabalhar juntos para criar um ambiente favorável à redução do peso. Além disso, toda a família, incluindo os avós e colaboradores domésticos devem estar comprometidos com o programa de emagrecimento"
Renata Giudice - Nutricionista

Antes que o problema apareça
A Obesidade infantil pode ser prevenida desde a gestação. As futuras mamães devem ficar atentas “já que o excesso de tecido adiposo materno parece comprometer a programação metabólica fetal, favorecendo o aparecimento de Obesidade e Diabetes na criança. Além disso, outro fator protetor à Obesidade é o aleitamento materno, que deve ser realizado exclusivamente até os seis meses de vida e, após o início da alimentação, pode ser mantido até os dois anos. Deve também ser evitada a experimentação de doces durante os primeiros dois anos de vida”, finaliza a coordenadora da Endocrinologia Pediátrica do Hospital São Luiz.

Dra. Aline Dantas Costa Riquetto
R. Almirante Brasil, 685 - S. 803
F: 2692.9920 / 99645.1700

Renata Giudice - Nutricionista
Av. Guilherme Giorgi, 374
F: 2193.3583 / 99246.3632
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