Edição 272 | 2014

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08/07/2014 10:04

Uma chance para recomeçar

Equipes multidisciplinares de reabilitação promovem a recuperação e proporcionam uma vida mais independente àqueles que sofreram algum trauma




Andar, falar, engolir, escovar os dentes e pentear os cabelos sozinho parecem atividades banais realizadas de forma ‘automática’ no nosso dia a dia. Enquanto não somos privados de tomar banho ou abotoar a camisa por conta própria, não costumamos pensar nas milhares de pessoas que, de um dia para o outro, passam a depender do auxílio de familiares e cuidadores para executar tarefas antes consideradas simples e irrelevantes.

Muitos são os fatores que levam um indivíduo à situação de acamado, como é o caso do AVC – Acidente Vascular Cerebral, também conhecido como Derrame. Costumeiramente acompanhada de severas sequelas, a doença pode deixar o paciente debilitado e dependente de ajuda. A situação também costuma vir juntamente com negação e Depressão, que devem ser tratadas por uma equipe multidisciplinar. É aí que entra o trabalho da reabilitação, composto por profissionais de fisioterapia, fonoaudiologia, neurologia, psicologia, terapia ocupacional e muito amor da família e dos amigos, fator essencial para a recuperação mais rápida dos debilitados. 

Outras enfermidades também podem levar um indivíduo a necessidade deste tipo de tratamento, como as lesões medulares, pela inervação do tronco, braços, pernas e parte da cabeça, responsáveis por deixar os pacientes tetraplégicos ou paraplégicos; traumatismo craniano; problemas relacionados à gravidez e parto como falta de oxigênio, que pode levar a paralisia cerebral.  

O fisiatra no Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HCFMUSP – Hospital das Clínicas e diretor médico no Instituto de Reabilitação Lucy Montoro, Daniel Rubio de Souza, confirma que dependerá do tipo de lesão e da faixa etária do indivíduo, que está predisposto a certos males. A partir dos 50 e 60 anos, o AVC é provavelmente o mais comum, que gera uma sequela neurológica grande. Fatores como alterações cardiovasculares, Hipertensão, Diabetes e tabagismo não controlado podem levar ao Acidente Vascular Cerebral, e até exigir a amputação dos membros.

Para os adultos jovens e adolescentes, os maiores vilões são a violência urbana e os acidentes de trânsito, principalmente para quem dirige em alta velocidade, alcoolizado e sem o cinto de segurança. As chances de obter um trauma quando do uso do cinto de segurança, por exemplo, diminuem significativamente, por isso a importância desse método de prevenção.

“Uma das grandes causadoras de deficiência é a motocicleta, pois o corpo fica mais exposto e aumenta o risco de lesões”, esclarece.
Para a equipe multiprofissional do Serviço de Reabilitação do Hospital Sírio-Libanês, a reabilitação tem na prevenção, no diagnóstico e no tratamento da incapacidade os seus principais enfoques. Assim, volta-se não apenas para a doença e suas causas, mas também para seus efeitos e consequências.

Recuperação
Na AACD - Associação de Assistência à Criança Deficiente, o trabalho realizado tem o objetivo de proporcionar a execução das funções perdidas ou que não foram adquiridas, de acordo com seu percentual residual. “Atendemos pacientes com deficiência física, grandes incapacitados, traumas de crânio, AVC, amputações, crianças que nascem com paralisia cerebral, má formação e doenças congênitas, que levam a alterações motoras e necessitam de auxílio para aprender novas formas de executar essas funções e de se inserir na sociedade”, alega o fisiatra e gerente médico de reabilitação da AACD Ibirapuera, Marcelo Ares.

Durante este processo, o objetivo é que o paciente atinja o máximo de seu potencial funcional, psicossocial e vocacional para retomar da melhor forma possível a sua rotina familiar e profissional.

Ares destaca a importância de um médico fisiatra para fazer o diagnóstico da incapacidade e prognóstico de reabilitação, através de exames clínicos, medicamentos, indicações cirúrgicas, histórico do paciente e uma boa equipe de profissionais capacitados para inserir um tratamento adequado com exercícios, estímulos, indicação de próteses, entre outras possibilidades para aquele caso.

Desde o fisioterapeuta, que acompanhará os exercícios, ajudará a manter o equilíbrio, ensinará a transferir-se da cadeira de rodas; o terapeuta ocupacional que avaliará as funções e adaptações; o psicólogo que dará suporte para o paciente e seus familiares; pedagogo; fonoaudiólogo para exercitar a fala, articulação e deglutição, até aulas como fisioterapia aquática, musicoterapia, arte e esporte adaptado, todas as áreas se empenham na recuperação e qualidade de vida daquele paciente.

“Os exercícios visam estimular alguma função que o indivíduo vai adquirir, a trabalhar o tronco, por exemplo, para poder se transferir da cadeira de rodas, todos com objetivo funcional, e não é um trabalho de manutenção para a vida toda e sim um processo de reabilitação”, enfatiza Ares.

Conquista da independência
A coordenadora de esporte adaptado na neuromuscular e medicina esportiva e fisioterapeuta do setor de doenças neuromusculares da Unifesp – Universidade Federal de São Paulo, Salete Conde, orienta que este perfil de indivíduo, com mobilidade reduzida, que sofreu algum quadro clínico ou hemorrágico e perdeu suas funções motoras, precisa ser estimulado desde movimentos simples, como pegar uma caneta, garfo e faca para se alimentar, pentear o cabelo, tratar de sua higiene pessoal, até mais complexos, como fazer a transferência da cadeira de rodas, voltar a dirigir e trabalhar, envolvê-lo numa gama de exercícios, que comece de forma moderada e depois ir executando estímulos mais profundos, para que retorne a sua vida normal. “Não adianta treinar o paciente e não dar uma função para aquilo que se busca. Reabilitar significa recuperar funções para que ele consiga retornar de forma completa ou adaptada a rotina de antes”, relata.

Motivação como aliada
No dia 3 de fevereiro deste ano, Rebeca Barreto, 21, voltava de moto do trabalho quando sofreu um acidente. “No momento que cai, já não sentia as pernas. Não desmaiei e acompanhei desde as pessoas que pararam para me socorrer, até a chegada do meu pai e da equipe médica, que fizeram os primeiros socorros. Em seguida, fui para um hospital de Itapecerica da Serra, onde moro, e constatou-se um trauma na L1 (coluna), que me deixou paraplégica. De lá, fui para o Hospital Alvorada em São Paulo para a primeira cirurgia, correndo o risco de ficar tetraplégica. Foram 10 horas de intervenção médica, com oito pinos e três hastes colocados. Depois, soube ainda que ia precisar passar por uma nova operação, porque um dos pinos ficou fora do lugar. Foi difícil”, relembra.

Após 18 dias do ocorrido, ela começou a sentir a perna direita, mas não tinha todos os movimentos. Com o apoio da família, a jovem está internada na Rede de Reabilitação Lucy Montoro para recuperá-los. “Minha mãe e meu marido estão sempre ao meu lado. Faz um mês que estou em tratamento de reabilitação e hoje consigo andar na barra sozinha. Continuo na cadeira de rodas, ainda não consigo usar o andador, estou me locomovendo com o robô, que tem me ajudado muito na região das pernas, coloco bastante força nelas. Também vou para a piscina e hidro, que tem me auxiliado a melhorar meu condicionamento físico. Quando cheguei não sentia nada e nem tinha controle da bexiga, e atualmente me viro sozinha, mesmo na cadeira de rodas, sou independente, me transfiro e faço quase tudo sozinha”, pontua.

Rebeca tem plena convicção que logo sairá da cadeira de rodas e voltará a andar. “Para perder os movimentos bastam apenas alguns minutos, um impacto, mas para ganhá-los é uma eternidade. Mas não vou desistir. Continuarei fazendo fisioterapia e me dedicando para chegar ao meu objetivo”, completa.

Para quem está passando pela mesma situação, ela aconselha confiar em Deus, em primeiro lugar e olhar o problema do tamanho que ele é e não aumentá-lo. “Independente disso, a vida tem que continuar”, pontua. 

Nova técnica
Revolucionar a recuperação de paraplégicos e tetraplégicos, aumentando a esperança dos pacientes e alcançando resultados inéditos no País. Esse é um dos principais objetivos do chefe do Laboratório de Patologia Neuromuscular e professor adjunto de Patologia Cirúrgica da Unifesp, Beny Schmidt, e dos departamentos de Ginecologia e de Neurologia e Neurocirurgia da Escola Paulista de Medicina da Unifesp e o Hospital São Paulo, através de uma técnica que combina ferramentas de ambas as especialidades em pacientes com paraplegia ou tetraplegia por lesão medular. O procedimento, já realizado em apenas quatro países (Suíça, Áustria, Alemanha e França), tem como objetivo retomar alguns dos movimentos e funções perdidos.

Foi criado especialmente para testar a técnica de implante de eletrodos neuroestimuladores nos nervos ciático, femoral e pudendo (sacrais). Localizados na região abdominal, eles são os responsáveis pelos movimentos das pernas e pés e pelo controle da bexiga e do reto.

O implante é feito por videolaparoscopia, de forma pouco invasiva. Além da menor agressividade cirúrgica, a possibilidade de tratamento sem necessidade de seccionar as raízes nervosas é outra vantagem da técnica. “A neuromodulação, técnica que se inicia na Unifesp e em outros centros especializados pelo mundo, na qual são colocados eletrodos em nervos periféricos, talvez seja, na história da Medicina, a mais criativa iniciativa da ciência na área neuromuscular”, afirma Schmidt. “Esperamos alcançar resultados ainda melhores do que os obtidos fora do Brasil, pois combinamos as vantagens da neuromodulação a novas técnicas desenvolvidas por nossa equipe aqui no País”, completa o especialista.

Na prática, espera-se uma série de benefícios para os pacientes, como controle da função urinária e da incontinência de fezes, ganho de massa muscular nos membros inferiores e a possibilidade de ficar de pé e até mesmo andar, com o auxílio de andador.

Nucelio Lemos, que faz parte da equipe com Schmidt, explica que a grande inovação da técnica é o local de implante dos eletrodos que, em vez de serem colocados na medula, são implantados após a formação dos nervos. “Desta forma, conseguimos respostas mais específicas aos estímulos”, afirma ele.

Com a neuropelveologia – como é chamada essa especialidade desenvolvida a partir de 2003 pelo médico francês, radicado na Suíça, Marc Possover – é possível a visualização dos nervos sacrais por videolaparoscopia e a implantação de um neuroestimulador na porção abdominal. “A neuroestimulação sacral já existe desde a década de 1980. A diferença da nova abordagem é o local de implante dos eletrodos”, explica o especialista. O procedimento viabiliza diagnósticos e tratamentos antes impossíveis, devido aos riscos e à dificuldade de acesso e visualização desses nervos pelas vias cirúrgicas tradicionalmente utilizadas nas especialidades de Neurocirurgia e de Ortopedia. A técnica também traz inovações no tratamento de pacientes com Endometriose; que sofram compressões nervosas decorrentes de cirurgias ou varizes intra-abdominais; amputados com dores nos membros fantasmas; e portadores de incontinência urinária e anal.

O primeiro caso no País
Uma lesão medular grave, causada por um acidente com esqui aos 20 anos, mudou radicalmente a vida de Francisco Virmond Moreira, estudante do 4º ano de Medicina. Cinco anos após ouvir de vários especialistas que teria de se acostumar com a dependência à cadeira de rodas, hoje ele vislumbra um futuro diferente. 

O estudante é o primeiro caso de tetraplegia que se beneficiou da técnica de neuropelveologia no País, recebendo, em dezembro de 2013, o implante do neuroestimulador e de eletrodos ligados aos nervos femorais (que controlam o músculo quadríceps, da coxa) e ciáticos (que controlam os pés e o quadril) e, ainda, ao nervo pudendo (responsável pelo controle da urina e das fezes).

De acordo com o neurologista e coordenador do Setor de Doenças Neuromusculares do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da EPM/Unifesp, Acary Souza Bulle de Oliveira, Moreira chegou até a equipe médica da Unifesp apresentando lesão medular incompleta de grau B. “O paciente não conseguia elevar os cotovelos acima dos ombros, apresentava mãos em garra e incontinência urinária, necessitando de sondagem frequente da bexiga”, explica. “Hoje, cinco meses após o implante, ele já consegue elevar os braços acima da linha da cabeça, fica em pé, desloca os quadris para a lateral com a ajuda do tronco inferior, movimenta os pés e caminha dentro da piscina. Além disso, a capacidade da bexiga dobrou, o que permite ao paciente ficar o dobro do tempo sem passar a sonda para esvaziar a bexiga.”  

O tratamento não se resume aos estímulos elétricos, mas envolve também um processo de reabilitação intensa, com extrema disciplina. O valor despendido também é alto. O custo da cirurgia é de R$250 mil e a reabilitação cerca de R$5 mil por mês.

Lemos informa que para o sucesso do procedimento são relevantes os fatores como a gravidade e altura da lesão, se é parcial ou completa e a dedicação do paciente a reabilitação.

Schmidt ressalta ainda que a reabilitação neuromuscular depende de três quesitos: a inteligência neuromuscular, que é a parte da patologia que cuida do músculo, diagnóstico preciso e amor. “Um reabilitador precisa ter cuidado com o paciente e também a participação dos familiares. Acompanho meu paciente fisicamente, o conheço profundamente, acredito nas propriedades benéficas da água na patologia muscular. E hoje temos uma série de suplementos e hormônios que, em pequenas doses, proporcionam ganho de massa muscular. É preciso paciência para fazer a fisioterapia, por isso, se o paciente conta com um ambiente alegre e otimista, tudo será estimulante”, avalia.

Especialista na área, Schmidt já sentiu na pele o que é estar na condição de paraplégico, quando perdeu a marcha aos 18 anos, e demorou cerca de cinco anos para voltar a andar. “Quando faço uma pessoa andar, fico mais feliz do que o próprio paciente. Poucas vezes não tive sucesso, existem alguns casos, mas quando a família tem paciência para esperar, os resultados são sempre positivos”, completa.

De acordo com as leis brasileiras, os planos de saúde serão obrigados a fornecer esta nova tecnologia, inclusive no SUS. “Todos devem ter acesso a esse tipo de tratamento”, conclui.

Reestabelecendo a fala
Dentre os problemas apresentados por quem sofre um trauma ou AVC, a fonoaudióloga Katia Ignacio Menegueti aponta que é comum os indivíduos terem sua comunicação abalada, apresentando Afasia (perda da capacidade e das habilidades da linguagem falada e escrita). Diversos males e alterações neurológicas também podem dificultar a linguagem na comunicação, expressão e compreensão. Pode-se ter desde um mutismo, quando ocorre a ausência da fala, até Parafasia, que consiste na troca e na deformação de palavras.

“Quanto mais cedo começar a reabilitação, melhor, porque existe um processo que chama-se plasticidade neural, no qual os neurônios têm de formar novas conexões a cada momento, no início do traumatismo ou do AVC, próximo à lesão”.

Outro problema está relacionado a alimentação, a Disfagia, que causa a dificuldade de deglutição. “Indico a este paciente voltar a fazer as atividades que executava antes, claro que terá limitações, mas se gostava de ler, por exemplo, ou assistir a novela, que volte a fazer, pois irá contribuir para o sucesso do tratamento”, sugere.

Superação
Marcelo Silveira Bueno, 33, foi vítima de uma bala perdida em um parque, quando tinha 14 anos. O paciente conta que ficou internado para a retirada do projétil que atingiu sua coluna, provocando lesão na T1 completa, deixando-o paraplégico. “Quando acontece algo assim, sua vida vira de ponta-cabeça, você não sabe mais nada, tomar banho, se vestir, entre outras tarefas do dia a dia. Procurei a AACD porque precisava aprender tudo de novo”, alega.

Ele começou a fisioterapia e a praticar tênis de mesa adaptado, em um trabalho para seu condicionamento físico. Atualmente, é um atleta paralímpico premiado, além de artista plástico. “Hoje sou totalmente independente. Viajo o Brasil inteiro para a disputa de campeonatos. É uma vida nova depois do acidente, tendo fé em Deus e jamais abaixo a cabeça; se puder praticar qualquer tipo de esporte, ajudará muito a seguir em frente, conhecer pessoas e ter atividades em seu cotidiano”, salienta.