Edição 260 | Julho/13

Home/ Revista/ Edição 260/ Saúde


Clique para ver a versão impressa [+]
05/07/2013 11:16 - Atualizado em 05/07/2013 14:16

Quando o Câncer bateu à minha porta...

Conheça histórias e desafios de quem já passou por essa experiência marcante ou quem ainda vive a rotina de tratamentos e superação


"Minha vida sempre foi muito intensa e agora tenho mais uma história para contar: o Câncer”, revela a idealizadora do blog Quimioterapia e Beleza, Flávia Flores (foto ao lado), 35,  que dá dicas de beleza, maquiagem, nutrição e ideias para amarrar lenços, usar cosméticos e cuidados diários para a inspiração de milhares de pacientes que atravessam a mesma etapa. “Percebi como as pessoas geralmente se enclausuram e resolvi ir ao contrário dessa tendência, botar essa carinha para servir de exemplo e tornar o dia a dia daqueles que precisam passar pelo tratamento, melhor. Com minhas fotos, vídeos e mensagens, quero inspirar outras pacientes e juntas não deixarmos a ‘peteca cair’. Ter criado a fanpage e me dedicar diariamente a uma causa tão nobre, que é ajudar outras mulheres a superar o tratamento, me alimenta a alma, sai uma força de dentro de mim que me traz paz e alegria indescritíveis”, diz.

Trabalhando há 22 anos no mercado da moda, Flávia lembra que constatou a presença de um caroço durante um autoexame de mama. “Mostrei para alguns médicos e também para amigas que já tinham passado por essa situação, mas ninguém se preocupou, devido a minha idade, não havia histórico familiar e por ter aparecido de repente. Tinha feito um ultrassom seis meses antes, como costume preventivo e, até então, nunca havia aparecido nada. Fiz uma mamografia que apontou um nódulo aparentemente inofensivo. Mas, minha prótese no seio esquerdo, que havia feito quando tinha 20 anos, havia rompido. Mostrei tudo isso ao cirurgião plástico que, mesmo assim, me operou, trocando minhas próteses antigas. Ficou tão lindo que nem lembrava mais do nódulo que tinha sido retirado. Cerca de 10 dias depois, minha mãe disse que o médico precisava me ver com urgência, para tratar da biópsia que mandou fazer daquele caroço”, relembra.

O momento que se sucedeu, da descoberta do Câncer, veio acompanhado de dúvidas e medo. “Mal conseguia respirar. Me senti frágil e desprotegida. Chorei durante 10 dias. O Câncer é de um caráter bem agressivo, cada caso é um caso, a gente não pode se comparar a doença dos outros; que tem outra idade, diferentes médicos, outra situação, distinto grau de enfermidade... Tive uma neoplasia mamária, foram retirados quatro caroços, o maior com mais de cinco centímetros, esse cresceu em três meses cerca de três centímetros; tenho uma proteína que apenas 20% das pessoas têm, o ‘her +++’, tudo isso foi levado em consideração para que meu oncologista traçasse o melhor tratamento. Em março de 2014 finalizo os diferentes tipos de quimioterapia que estou fazendo e serei reavaliada para a segunda parte do tratamento”, pontua.



Primeiro impacto
Segundo pesquisa realizada pela Macmillan Cancer Support, em Londres, divulgada pela Universia Brasil, em 2040 o número de pessoas com 65 anos ou mais, que sobrevivem a um Câncer deverá passar de 1,3 milhões para 4,1 milhões. O estudo mostra que o número de homens que vão sobreviver a doença passará de 2,8 para 6,2%, e nas mulheres de 3,9 para 8,5%. O maior aumento será nos grupos formados pelos sobreviventes dos cânceres de mama e próstata e no total, 23% das pessoas mais velhas terão sobrevivido a um diagnóstico da doença, em comparação com os 13% contabilizados em 2010. A pesquisa, publicada no British Journal of Cancer produz projeções das taxas de Câncer com base nos dados atuais, e nas tendências existentes na incidência da doença em homens e mulheres.

Na obra “Doutor, é câncer?”, o urologista Lísias Nogueira Castilho explica que as participações do médico e dos familiares são essenciais. O isolamento pelo qual os pacientes passam – às vezes por conta de um distanciamento a que eles mesmos se impõem, às vezes por conta da ignorância de pessoas que acreditam que o Câncer seja contagioso e não querem ficar perto de um doente, ou até mesmo por conta da política hospitalar que coloca o paciente sozinho em um quarto de UTI – é extremamente prejudicial.

“No caso do Câncer de mama, o diagnóstico e o seu tratamento causam sérios impactos na saúde psicológica das pacientes. A mastectomia traz consequências estéticas que afetam a autoestima feminina, o que gera problemas na esfera sexual”, explica o cirurgião plástico do Departamento de Cirurgia Plástica da Escola Paulista de Medicina da Unifesp, Miguel Sabino Neto.

Saúde X vaidade
De acordo com dados do Inca - Instituto Nacional de Câncer, o Câncer de mama é hoje o segundo tipo da doença mais frequente no mundo e o mais comum entre as mulheres. No Brasil, as taxas de mortalidade continuam elevada

A taxa de mortalidade justifica-se, muitas vezes, pelo diagnóstico tardio. A demora na detecção também pode impactar na sobrevida da mulher e influenciar no quanto a cirurgia de retirada do tumor afetará a mama, em muitos casos, até mesmo com a retirada total do órgão.

Além disso, recentemente no Brasil, houve uma grande conquista para as mulheres que estão na fila para uma reconstrução mamária. O projeto aprovado pelo Congresso em março deste ano exige que a cirurgia reparadora seja feita no mesmo procedimento da retirada da mama, nos casos em que isso seja clinicamente possível. Para os outros casos, a realização do procedimento deverá ser feita assim que a mulher estiver em condições adequadas.

A reconstrução mamária é feita por meio de cirurgia plástica reparadora, com o uso inclusive de implantes de silicone. No entanto, por razões clínicas, nem sempre é possível fazer a reparação logo após a retirada da mama. Por isso, é importante que a paciente converse com seu médico sobre o melhor momento para realizar o procedimento. “A orientação é procurar controlar anualmente através de exames clínicos ou complementares como a mamografia, porque esse controle periódico favorece um diagnóstico precoce e o tratamento vai curar a paciente. Se for tardio, a paciente reduz as chances de cura total da doença”, indica Neto.

Mastectomia preventiva
A atriz Angelina Jolie revelou recentemente que passou por uma dupla mastectomia preventiva (retirada dos seios), após os médicos estimarem que ela tinha um risco de 87% de desenvolver Câncer de mama e de 50% de ter a enfermidade no ovário. O especialista em cirurgia plástica pelo Instituto Ivo Pitanguy, Leonardo Aguiar, alerta que tanto a decisão da mastectomia quanto a de colocação de prótese precisam de criteriosa análise profissional. “No caso da cirurgia preventiva é fundamental a disposição da paciente. É papel do médico fornecer as informações necessárias para ela participar da decisão”, defende.

De acordo com o mastologista do Hospital Nossa Senhora das Graças, Cícero Urban, as causas do Câncer de mama podem ser classificadas em: familiar, esporádica e hereditária. “As mutações mais frequentes ocorrem nos genes BRCA1 e BRCA2. Eles representam uma minoria dos casos da doença, talvez menos de 2%, mas os números reais são desconhecidos”, explica.

A mutação em BRCA1, muitas vezes, leva a cânceres de mama agressivos, e que apresentam dificuldade de detecção nos exames de imagem. A atriz, para preveni-lo, optou pela mastectomia redutora de risco, ou seja, a retirada total da glândula mamária. Segundo Urban, a decisão foi adequada e proporcional ao quadro genético apresentado, mas, não deve ser estabelecida à todas as pacientes. “Apenas recomendamos para casos específicos, porque as cirurgias de retirada da mama possuem riscos que devem ser considerados na decisão da paciente”, ressalta.

Os testes genéticos têm indicação precisa e restrita a situações onde a suspeita de Câncer hereditário seja alta. “Porém, um teste genético negativo não exclui a possibilidade de Câncer, pois a maioria das mutações ainda são desconhecidas”, afirma. Já nos casos de Câncer de mama esporádico, que representam cerca de 90%, ocorre em pacientes sem histórico familiar. “Nestes casos, o componente genético existe, mas as mutações ainda são desconhecidas e podem ser adquiridas e não hereditárias”, destaca. O Câncer de mama familiar é aquele que surge em pacientes cujos familiares, sobretudo os de primeiro grau - pais e irmãos, também foram acometidos, mas não foi detectada ou não foi pesquisada nenhuma mutação genética conhecida.


Afinal, o que é o Câncer?
É o nome genérico para mais de 100 doenças diferentes, com causa, células de origem, tratamentos e prognósticos distintos.

Para o oncologista clínico do Centro de Combate ao Câncer, Cid Buarque de Gusmão, todas elas têm em comum o crescimento desordenado de células que perderam suas características normais e não respondem mais aos estímulos que controlam a replicação e morte celulares, adquirindo capacidades como multiplicação descontrolada e migração e invasão para outros tecidos, que a caracterizarão como uma célula maligna.

Ele é causado por alterações genéticas que podem ocorrer devido a fatores externos (substâncias químicas, irradiação e vírus) e internos (hormônios e mutações genéticas). “As causas externas estão relacionadas ao meio ambiente e aos hábitos do indivíduo e as internas às alterações que podem levar a mutações genéticas que interfeririam no mecanismo de multiplicação, reparo e morte celular”, destaca.

“A oncologia aliada à cirurgia, às novas drogas e à quimioterapia tradicional, atacam a célula maligna de forma mais eficaz e específica. Possuímos hoje medicamentos que são capazes de identificar e destruir apenas a célula tumoral, poupando as saudáveis. São as chamadas drogas alvo-moleculares”, enfatiza. De forma semelhante, os novos aparelhos de radioterapia têm capacidade de desenhar o alvo, se adaptar aos movimentos de respiração do corpo, atingindo com precisão milimétrica o campo tumoral.

Unidos pela cura
Três histórias de superação se encontraram na AAPECAN - Associação de Apoio a Pessoas com Câncer. A pequena Milena Nunes Santos, 8, foi diagnosticada com Leucemia quando tinha apenas cinco anos. “Ela teve febre acima de 40º C, e o pediatra achou que era uma virose. Cerca de 15 dias após o início da febre, que chegou a 43º C, ela apresentou dor no corpo, manchas e hematomas. Levamos ao hospital e soubemos do diagnóstico. Perdemos o chão. Neste instante já a levaram direto para a UTI, pois estava com pneumonia. Aí começou a nossa batalha. Ela ficou um ano e oito meses fazendo quimioterapia e entrou na lista de transplantes de medula, já que nenhum de nós éramos compatíveis. Graças a Deus conseguimos e ela fez a cirurgia. Hoje Milena está curada, uma grande vitória”, conta a mãe Silvana Bastista Nunes.

A adolescente Bárbara Kustr de Souza, 16, enfrenta a mesma doença pela terceira vez. “Fazem nove anos que lutamos contra a Leucemia. Tudo começou quando surgiu uma mancha amarelada, e em seguida percebi manchas roxas pelo corpo, depois de 15 dias ela teve fraqueza, falta de apetite, sonolência, vômito e já estava se tratando de uma Anemia. Na época, chegou a ficar com 39% da medula doente. Quando recebemos a notícia foi um momento horrível, que gostaríamos que ninguém passasse. Ficamos 30 dias internados combatendo o mal com quimioterapia. Continuamos com o tratamento por mais oito meses e entrou em fase de manutenção. Porém, dois anos depois, em 2009, a doença retornou com 75% de comprometimento, iniciamos novamente a quimio por mais nove meses. Bárbara entrou para a fila de transplante, mas na época não foi encontrado um doador compatível. Como ela apresentou melhora só com a quimioterapia, foi retirada da lista. Em 2012, ela recaiu. A vida dela parou durante todo esse tempo, ficou fora do colégio e de circulação. Só faz o tratamento e estamos em busca de um doador e temos fé que logo o telefone vai tocar com a boa notícia”, se emociona a mãe Margarete Kustr.

“Não é fácil, mas não me deixo abater, tenho que seguir em frente. A pior parte é ter que abandonar tudo, se afastar das coisas do dia a dia como a escola”, conta Bárbara.

Marli Francisca Larandi, 59, enfrentou e superou um Câncer de mama, fez tratamento e cirurgia e hoje está curada. “Em 2007 fiz exames de rotina e apareceu na mamografia a enfermidade. Após a retirada, fiz a reconstrução mamária. Meus pais estiveram do meu lado em todo o processo e minha mãe dizia que eu não poderia morrer antes dela. Tem que ter muita fé, acreditar que vai melhorar e buscar tratamento”, recomenda.

Fatores de risco
De acordo com a coordenadora da Oncologia Clínica do Icesp - Instituto do Câncer do Estado de São Paulo Octavio Frias de Oliveira, Maria Del Pilar, existem diversos fatores que podem ser associados ao aumento da incidência de Câncer no mundo, como o envelhecimento da população, maior exposição a agentes carcinógenos como tabaco, álcool, vírus relacionados a enfermidade e mais recursos para o diagnóstico. “Para o aumento da possibilidade de cura é necessária uma combinação de fatores: o diagnóstico em um momento em que a cura ainda é possível, a existência de tratamentos apropriados e com potencial curativo e um paciente disposto a se tratar, com acesso aos tratamentos e com condições de saúde para tanto”, pontua.

Existem realidades muito diferentes no mundo. Temos desenvolvido drogas específicas para determinadas neoplasias, que possibilitam maior eficiência no tratamento, muitas vezes com menos efeitos colaterais. Também conhecemos mais sobre a hereditariedade e as mutações específicas do Câncer, que possibilitam estratégias diferenciadas para a prevenção e diagnóstico precoce. Por outro lado, enfrentamos disparidades, uma vez que o custo do tratamento é crescente. Em países em desenvolvimento, estratégias de rastreamento de cânceres de alta prevalência, como o de colo uterino, são inexistentes.

Vilão para a saúde
Um único cigarro possui mais de 4 mil substâncias tóxicas, das quais 60 são comprovadamente cancerígenas, causando pelo menos 14 tipos diferentes de Câncer. A idade média de iniciação é de 15 anos e 90% dos tabagistas começam a fumar antes dos 19. A especialista em tabagismo da ABEAD - Associação Brasileira do Estudo do Álcool e outras Drogas, Sabrina Presman, explica que o uso do tabaco envolve três tipos de dependências: física, psicológica e comportamental. “Existem diversos métodos para deixar de fumar. O importante é procurar um especialista para encontrar a melhor maneira para abandonar o vício”.

O Câncer de pulmão tem um aumento mundial de 2% ao ano. No Brasil, de acordo com o Inca - Instituto Nacional do Câncer, só no ano passado mais de 17 mil novos casos da doença foram diagnosticados em homens e mais de 10 mil em mulheres.

Estudo recentemente publicado no jornal ‘Cancer’ demonstrou que o rastreamento com tomografia computadorizada de baixa dosagem em tabagistas pesados reduziu a mortalidade por Câncer de pulmão em 20%, em comparação com o raio-X. O estudo também indica que 12 mil mortes pela doença poderiam ser evitadas nesse grupo de maior risco com o uso da tomografia nos Estados Unidos.

Um segundo estudo, publicado no New England Journal of Medicine indica que o número de vidas que podem ser salvas através desse critério diagnóstico é ainda maior, sugerindo que outros grupos de pessoas tenham acesso. De acordo com o médico radiologista de tórax do CDB - Centro de Diagnósticos Brasil, Moacir Moreno Junior, a TC - Tomografia Computadorizada é um exame preciso e bastante eficiente na detecção e acompanhamento pós-tratamento do câncer pulmonar. “O exame possibilita uma visão em fatias milimétricas de todo o pulmão, permitindo detectar e medir as dimensões de uma lesão, sua posição e relação com as demais estruturas ao redor. A TC também pode ser utilizada, quando indicada, como método para guiar biópsias de lesões pulmonares, facilitando o diagnóstico de tumores ainda em estágio inicial”, diz.

Tumores de localização pulmonar central podem provocar tosse, sangramento e falta de ar. Os que envolvem o ápice pulmonar podem desencadear dores nos ombros e braços. Há outros, porém, que não dão sinais tão evidentes. De acordo com Moreno Junior, esses ou estão localizados em uma região periférica ou têm dimensões tão pequenas que ainda não produzem sintomas. É justamente nessa fase inicial que as chances de cura seriam maiores se a lesão tivesse sido detectada.

O melhor remédio é a prevenção
Existe uma preocupação crescente com a qualidade de vida e os novos estudos têm sido acompanhados da avaliação deste quesito, além dos parâmetros clássicos, como a sobrevida global, a taxa de resposta e efeitos colaterais mais severos como, por exemplo, lesões em rins ou coração. Essas avaliações da qualidade de vida são feitas com questionários em que o paciente responde sobre sua saúde em geral, suas atividades sociais, seu bem-estar afetivo, sua impressão subjetiva sobre a doença e o tratamento.

“Infelizmente, quando as drogas são desenvolvidas, não é possível ‘escolher’ o efeito colateral, eles são uma consequência do mecanismo de ação. O que tem mudado é a valorização desses efeitos, seu tratamento ou a orientação para o paciente de como proceder se eles aparecerem. Isso com remédios para náuseas, diarreia, obstipação, problemas na pele, neuropatia, dentre outros”, explica Maria Del Pilar.

A especialista destaca que o tratamento pode alterar o paladar, e, para não haver emagrecimento, a dieta precisa ser ajustada. Por vezes, alguns alimentos interferem na absorção ou metabolização das drogas, por isso, é importante discutir essas questões com o médico para os ajustes necessários na alimentação diária.

Para cada suspeita, os exames devem ser individualizados. “A biópsia do tumor continua sendo a base do diagnóstico, muitas vezes complementada por colorações especiais, como a imunohistoquímica, ou a pesquisa de mutações para o diagnóstico ou definição do tratamento, como o cKit, Kras ou Her2. Também temos inúmeros progressos nos métodos de imagem, seja nas tomografias computadorizadas, ressonância magnética e PET-CT”, completa.

Vacinas preventivas, como a contra o HPV  ou da Hepatite B estão aprovadas, mas vacinas terapêuticas são experimentais.

Em busca da cura
O médico e professor do ICB - Instituto de Ciências Biomédicas da USP, José Alexandre Barbuto, pesquisa vacinas antitumorais. Em seus estudos, a chave para a descoberta da cura para as diferentes formas do Câncer está nas células dendríticas – componentes do sistema imunológico responsáveis principalmente pela identificação e captura de agentes estranhos. “Em uma pessoa com Câncer, uma célula dendrítica que está em um lugar perigoso pode mostrar para o sistema imune que aquilo é algo ruim e que ele deve entrar na briga”, esclarece.

Mas ao contrário do que o nome sugere, a vacina não é feita para que pessoas saudáveis se protejam do Câncer. “O nome confunde, mas a vacina não é só preventiva, ela pode ser terapêutica também, servir como alternativa de tratamento”, afirma o pesquisador.

Ela é feita em doses únicas, específicas para cada indivíduo, já que, como alerta o professor, “cada Câncer é único”. São retiradas células dendríticas do sangue do paciente, que carregam um marcador do tumor, e fundidas à base de choques com outras células de doadores sanguíneos saudáveis. Essa forma de tratamento é usada para dois tipos de Câncer: de pele e do rim, normalmente em pacientes em estágio terminal. Na maioria deles, o tumor parou de crescer, o que Barbuto considera como um “superresultado”. Nestes pacientes terminais, a estimativa de vida dobrou.



Descobertas
Ao receber o diagnóstico de Câncer, os indivíduos têm, na maioria das vezes, dois grandes temores: associá-lo a um ‘atestado de morte’ e os efeitos colaterais provocados pela quimioterapia. Ambos, precisam ser reavaliados na opinião do ex-presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia, Enaldo Lima.

“Nos últimos 10 anos, o tratamento da doença passou a ser domiciliar, muitas das drogas administradas em clínicas, hoje são orais, aumentando a comodidade do paciente”, comenta. Além disso, os remédios atuais são mais brandos, com toxicidade inferior. “Com relação a quedas de cabelo, enjoos, fraqueza e vômitos, os medicamentos já apresentam menores efeitos colaterais e ao mesmo tempo contam com eficácia superior”, completa.

Em qualquer tipo de Câncer, é consensual que o diagnóstico não precisa ser associado a um atestado de morte. “Com as novas descobertas, tratamentos individualizados de acordo com a linha histológica e drogas cada vez mais avançadas e alvo-específicas, as taxas de remissão ou cura são uma realidade incontestável, ao mesmo tempo em que a qualidade de vida do paciente é cada vez maior”, diz Silvestrini.

No caso dos cânceres infantis, por exemplo, mais de 80% são completamente curados, quando descobertos na fase inicial. Outra novidade é que cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro em parceria com instituições brasileiras de pesquisa, divulgaram um novo tratamento contra metástase óssea. A descoberta foi transformar em nanopartículas remédios que agem manifestando baixas doses de radiação no tumor, e que já são utilizados no diagnóstico e tratamento do Câncer.

Os desafios da doença
Leoni Margarida Simm passou por um Câncer de mama em 2001, e teve a oportunidade de juntar-se ao grupo da médica Cacilda Furtado, que estava organizando a AMUCC - Associação Brasileira dos Portadores de Câncer, do qual é a atual presidente. Ela pôde conhecer histórias de mulheres mastectomizadas para enfrentar ainda em 2003 duas metástases nos pulmões e mais duas recidivas em 2005 e 2007/2008. “Trabalhamos com a missão de contribuir para o controle do Câncer e desfazer mitos, diminuindo o impacto da doença, esse é o maior estímulo de trabalhar em prol dessa causa”, afirma.

Apesar de tudo o que enfrentou, Leoni consegue tirar uma lição da doença: “O Câncer nos leva a compreender que a vida é finita. Ao entender a dimensão dessa constatação, podemos optar em transformar essa experiência em uma oportunidade para evoluir como criaturas humanas”, resume.

Para ela, é importante que busquemos qualidade no que fazemos, e que a efetividade de nossas ações traga resultados reais para as pessoas que convivem com o Câncer, seja em qualidade de vida ou em sobrevida.

Batalha que leva a solidariedade
Após cuidar da mãe portadora de Mieloma múltiplo, Christine Battistini também foi acometida pela doença e, hoje, está a frente de duas entidades de apoio a pacientes: o Instituto Espaço de Vida e a Fundação Internacional do Mieloma. “Minha mãe não conseguiu vencer a doença, mas sempre dizia que havia uma razão maior para ela ter ficado doente”, relembra.

Christine recebeu o diagnóstico de Câncer de mama, e percebeu as dificuldades em encontrar informações precisas, novidades sobre tratamentos e o quão importante era os pacientes e cuidadores terem qualidade de vida, mesmo depois do diagnóstico. Foi então que nasceu o Instituto, um núcleo voltado ao atendimento, divulgação de informações a pacientes de diversas doenças.

Alimentos do bem
De acordo com a nutricionista clínica do Centro de Oncologia e Hematologia do Hospital Albert Einstein, Marcia Tanaka, estudos atuais demonstram que a suplementação de micronutrientes, nutracêuticos e alimentos funcionais podem ter potencial para reduzir o risco de desenvolver Câncer, retardar a taxa de crescimento e metástase da doença, reduzir a toxicidade associada à quimioterapia e radioterapia, inibir a proliferação celular e induzir a morte celular em células cancerosas. Confira alguns alimentos específicos com evidente efeito benéfico à saúde e suas fontes alimentares.

Substância nutracêutica | Alimentos fonte
Compostos organosulfúricos | Cebolas, alho
Isoflavonas | Soja e outros legumes
Quercetina | Cebola, uvas vermelhas, brócolis
Capsaicina | Pimenta
EPA e DHA | Óleos de peixe
Resveratrol | Uvas
B-Caroteno | Frutas cítricas, cenoura, abóbora
Catequinas | Chás
Curcumina | Açafrão
Gingerol | Gengibre
Licopeno | Tomate

A vitória
A coordenadora da Oncologia Clínica do Icesp, Maria Del Pilar, orienta que, em primeiro lugar, é preciso ter informação sobre a doença, como sintomas, fatores de risco e medidas preventivas. “Devemos fazer a nossa parte, enquanto indivíduos, tomando medidas preventivas, como não fumar, ingerindo pouco álcool, praticar atividade física regular, manter um peso normal, aderindo a uma dieta rica em fibras e pobre em gorduras e praticando sexo seguro para reduzir a contaminação pelo HPV”.

Ainda segundo a especialista, a adesão a vacinação contra o HPV ou Hepatite B, quando indicadas e disponíveis, também são medidas importantes. “Mas nem sempre a prevenção é possível e o diagnóstico precoce é um dos fatores importantes para o sucesso do tratamento. E, finalmente, feito o diagnóstico, o início do tratamento, sem demora, é essencial”, finaliza.

Contra o Câncer
A ANS - Agência Nacional de Saúde Suplementar ampliou o rol de procedimentos que terão de ser ofertados pelos planos de saúde a partir de janeiro de 2014. Entre as novidades apresentadas, está a inclusão de 36 medicamentos orais para tratamento de Câncer. “Estamos seguros da incoerência desses medicamentos não serem cobertos pelos planos de saúde. É responsabilidade do Ministério da Saúde e da ANS reforçar o monitoramento e garantir o direito do cidadão”, acrescentou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

Os medicamentos inclusos têm 54 indicações contra vários tipos de Câncer como próstata, mama, colorretal, leucemia, linfoma, pulmão, rim, estômago e pele. O plano não poderá limitar a quantidade de medicamentos usada: o paciente terá direito ao volume prescrito pelo médico, enquanto durar o tratamento. Na área oncológica está prevista também a introdução de uma nova técnica de radioterapia e o exame Pet Scan teve suas indicações de uso estendidas de três para oito.


Tratamento no SUS
Entrou em vigor a Lei 12.732/12, que assegura aos pacientes com Câncer o início do tratamento em no máximo 60 dias após a inclusão da doença em seu prontuário. A Lei, que foi sancionada pela presidente Dilma Rousseff, teve sua regulamentação detalhada recentemente pelo Ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Segundo o Governo Federal e o Ministério da Saúde, o prazo máximo vale para que o paciente passe por uma cirurgia ou inicie sessões de quimioterapia ou radioterapia, conforme prescrição médica. Em decorrência da ampliação dos investimentos, a expectativa para 2013 é que o número de operações supere a marca dos 120 mil, 25% a mais que as 96 mil realizadas em 2012.


Risco na Tomografia
Um estudo australiano concluiu que a incidência de Câncer em crianças e adolescentes que se submetem ao exame de tomografia computadorizada é 24% maior do que em pessoas da mesma faixa etária que não passaram pelo procedimento. Um grupo de 10,9 milhões de pessoas de até 19 anos, participou da pesquisa e destes, 680 mil fizeram tomografias pelo menos 12 meses antes de um diagnóstico de Câncer. Os indivíduos tiveram acompanhamento durante nove anos e meio e o estudo apontou um risco aumentado para tumores sólidos, de cérebro, pele, tireoide, trato urinário e órgãos digestivos; leucemia e outros cânceres linfóides, quando a exposição à radiação aconteceu antes dos cinco anos de idade.



Celebridades que superaram a doença
Personalidades de diferentes ramos de atuação no País já enfrentaram o Câncer e venceram o desafio. Os casos mais lembrados pelo grande público foram o da apresentadora da TV Globo, Ana Maria Braga, que foi diagnosticada com Câncer de pele em 1991 e cerca de sete anos depois, extraiu um tumor benigno no útero. Em 2001 ela descobriu um Câncer no reto e após este último tratamento, desde 2002, está curada da doença. A atriz Drica Moraes teve Leucemia em 2010, após ter fortes dores e apresentar desmaios. Ela fez transplante de medula, transfusão de sangue e quimioterapia e também venceu a batalha, inclusive já está de volta à telinha.

Outros atores queridos dos brasileiros que manifestaram a enfermidade foram Patrícia Pillar, Joana Fomm, Márcia Cabrita, Herson Capri e Reynaldo Gianecchini, que lançou o livro “Giane – Vida, Arte e Luta”.

Na política, a atual presidente Dilma Rousseff enfrentou um Câncer linfático em 2009 e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva descobriu um Câncer na laringe, em 2011. Atualmente, o ex-jogador de basquete Oscar Schmidt luta contra um Câncer no cérebro.


Como prevenir o Câncer
    Cerca de 30 a 40% dos cânceres podem ser evitados com bons hábitos. Confira a seguir:
- Não fume – o cigarro é responsável por 30 % das mortes;
- Mantenha uma dieta equilibrada rica em frutas e verduras, por outro lado, reduza proteína animal do cardápio;
- Procure manter o peso ideal, evitando sobrepeso ou obesidade;
- Quadros infecciosos, causados por vírus ou bactérias, estão relacionados com 17% de todos os cânceres;
- Adote um comportamento de sexo seguro. É importante ainda vacinar as adolescentes contra o HPV, antes do início da vida sexual.