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O Desvio do Peixe

Publicada em : 01/12/2014

O espetáculo, concebido e dirigido por Evill Rebouças, segue em temporada no Teatro do Incêndio

José Rebouças
O espetáculo O Desvio do Peixe no Fluxo Contínuo do Aquário, concebido e dirigido por Evill Rebouças, segue em temporada no Teatro do Incêndio até dia 18 de dezembro, com sessões às terças, quartas e quintas, às 20 horas. A peça aborda as relações de isolamento e aproximação entre pessoas que vivem sob o mesmo teto; fala da solidão provocada pela individualidade exacerbada.

A ambientação da montagem da Cia Artehúmus de Teatro envolve o espectador logo na entrada do teatro, marcada por uma luz fraca que sugere proximidade. Os cômodos são separados por uma planta baixa e demarcados por abajures; nos quartos, observamos cadeiras e pequenos armários de aço escovado brilhante; e o peixe Tom nada sozinho em um aquário de 1,80m por 1,20m, em aproximadamente 100 litros de água. Segundo Evill Rebouças, “o peixe Tom faz lembrar a impotência, o isolamento e a pequenez do indivíduo na grande metrópole”.

Indicado, entre outros, ao Prêmio Shell de 2013 por Maria Miss (adaptação da obra de Guimarães Rosa) e vencedor do prêmio APCA (2002 e 2006), o diretor, dramaturgo e ator Evill Rebouças concebeu uma encenação, na qual atores buscam uma cumplicidade direta com o espectador ao mergulhar em temas como convivência, qualidade das relações, individualidade e interação social. Durante um ano, a companhia foi a campo, literalmente, para ver de perto como as pessoas se relacionam nos dias de hoje: albergues, conjuntos habitacionais e condomínios de luxo foram visitados. Além de observar a interação entre os moradores, o grupo entrevistou diversas pessoas para criar personagens que sigam protocolos comuns à nossa época.

“Em alguns condomínios de luxo os moradores recebem encomendas por caixa postal para não terem seus nomes revelados, enquanto que em um conjunto habitacional popular as pessoas deixam as portas abertas para os vizinhos entrarem. Nos albergues, onde muitas pessoas ficam juntas, há uma solidão imensa, pois ninguém ali se conhece realmente. Foi a partir de observações desses padrões que criamos os personagens da peça”, conta Evill.

A encenação

As histórias dos cinco personagens de O Desvio do Peixe no Fluxo Contínuo do Aquário são complementares. João Paulo (Edu Silva) e Dalva (Solange Moreno), pais de Téo (Daniel Ortega), repetem estranhamente juras de amor; estão próximos fisicamente, mas completamente distantes na relação.

A solidão é um ponto fundamental do espetáculo. Evill explica que não se trata de uma solidão da tristeza, “mas da solidão própria da individualidade exagerada, que nasce das necessidades do mundo atual, onde, por exemplo, jantamos com amigos e falamos ao celular ao mesmo tempo”. Os personagens, no entanto, se dizem felizes, são queridos, corretos e profundamente isolados e sós. “O que demarca essa situação é o ritmo acelerado de nosso tempo, legitimado por um sistema de ‘necessidades’ contemporâneas”, afirma o encenador.

Téo é o personagem que conduz e participa das ações: ele vê, opina, ironiza e provoca boas doses de humor. Apresenta, por exemplo, Anamélia (Natália Guimarães), sua irmã que está de casamento marcado com um colombiano que conheceu pelo Facebook. Clóvis, o porteiro (Cristiano Sales) é, curiosamente, o personagem mais próximo de Téo. Situação hilária acontece quando ele comenta o grau de exigência para a admissão do porteiro: Clóvis teve que fazer prova sobre as teorias do Panóptico de Foucault. Ironicamente o porteiro tem que comentar sobre os “dispositivos de controle”, teoria refletida por Michel Foucault.

Durante o processo, expedientes poéticos foram investigados para proporcionar ao espectador a ideia de “experiência”: “Contrário ao isolamento vivido pelos personagens, tratamos o espectador como sujeito presente, mas evitando o constrangimento, pois o que nos interessa é a cumplicidade”, comenta Rebouças. Para atingir esse grau de experiência e cumplicidade algumas convenções teatrais foram desprezadas:

Som - Boa parte das sonoridades do espetáculo é narrada; nesse caso o espectador terá que imaginá-las. E quando uma música é inserida na peça, isto ocorre diretamente dos aparelhos eletrônicos (notebook, tablets e celulares) dos atores. “São massas sonoras sutis, a fim de excluir a teatralidade convencional da trilha e aproximar o espectador do espetáculo”, sublinha Evill.

Luz - O mapa de luz não demarca nenhuma separação entre os personagens e a plateia. Essa escolha está relacionada aos estudos de encenação em locais alternativos, tema abordado por Evill Rebouças no livro A Dramaturgia e a Encenação no Espaço não Convencional, publicado pela Edunesp.

Projeções – O grande aquário, além de ser a morada solitária para um pequeno e único peixe, serve também para projetar imagens/telas de redes sociais, de sites de busca. Em dado momento, o peixinho solitário ganha companhia: projeta-se a gravura Peixes Grandes Comem Peixes Pequenos, do pintor holandês do século XVI, Peter Brueghel (uma leitura social sobre os modos de sobrevivência em que, geralmente, os grandes engolem os menores).

Figurino - No figurino predomina os tons pasteis/nude. Daniel Ortega trouxe para a cena uma unidade cromática e, ao mesmo tempo, a possibilidade de ver essa unidade como algo que diz respeito à falta de personalidade e ausência de individualidade perante um sistema político e social vigentes.

A Cia Artehúmus de Teatro – que já utilizou um banheiro público, seis andares de um prédio abandonado, uma lanchonete e elevadores como cenário par suas montagens – é um dos 52 grupos que apoiam e participam do movimento de ocupação no Ateliê Compartilhado Casa Amarela, na Rua da Consolação.



Serviço

Espetáculo: O Desvio do Peixe no Fluxo Contínuo do Aquário
Teatro do Incêndio
Rua da Consolação, 1219 - São Paulo – Fone: (11) 2609.8561.
Ingressos: R$ 30,00 (inteira), R$ 15,00 (meia). Bilheteria: 1h antes da sessão
Temporada: até 18 de dezembro. Terças, quartas e quintas, às 20h.
Gênero: drama. Duração: 80 min. Lotação: 50 lugares. Classificação: 12 anos


Fonte:VERBENA COMUNICAÇÃO