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Teatro de Bonecas

Publicada em : 21/10/2014

Volta em cartaz dia 1º de novembro no Teatro Pequeno Ato

Bob Souza
Com concepção e dramaturgia de Milena Filó e direção de Adriano Cypriano, o espetáculo TEATRO DE BONECAS, volta em cartaz dia 1º de novembro de 2014, agora no Teatro Pequeno Ato. A peça retrata o problema da identidade, suas incessantes construções e perdas e, assim, os inevitáveis arrependimentos no meio do caminho.

Duas atrizes (ao lado de Milena Filó atua Jackeline Stefanski) inventam memórias para uma personagem dramática, Nora de A Casa de Bonecas de Ibsen. Em cena, as atrizes “dançam” as possibilidades da história da personagem e tudo que sabem é que esse enredo já acabou, restando apenas os rascunhos que comprovam sua existência.

“Um espetáculo de teatro que se faz de memórias e de farrapos autobiográficos que postos juntos tocam a audiência. O espectador toma como seu aquilo criado pelo artista. Imagens e histórias que de tão sinceramente humanas já não podem ter um único dono, senão toda a humanidade. E assim é com Teatro de Bonecas”, conta o diretor.

Construído sobre suas próprias pegadas, o espetáculo inspira-se em um recurso das artes plásticas chamado pentimentos – os arrependimentos de um pintor, são aqueles traços apagados pela sobreposição de camadas de tinta, porém testemunhas inegáveis da composição da obra e sua genealogia.

“Trata-se de um espetáculo que coligi diversos materiais e cujo resultado final, por meio de condição palimpsesta, apresenta um hipertexto metateatral. O espetáculo me levou por searas imagéticas de grande potência, acompanhadas por um tratamento especialmente sensível, delicado. Inspiradas na personagem de Ibsen, as atrizes promovem na cena uma comunicação intrínseca, viceral, que concerne ao real de suas vidas, retrabalhadas esteticamente.”  conta Alexandre Mate, professor doutor do curso de artes cênicas da Unesp.

Dramaturgia

O texto também explora simbolicamente as memórias inventadas da personagem Nora, e das atrizes. A dramaturgia não é uma adaptação do texto de Ibsen, mas sua inacabada reinvenção. Revelando a personagem a partir de outra sensibilidade, para que dessa maneira possa ser mais relevante para o público contemporâneo. Composto por três camadas que representam o próprio tecido conjuntivo do espetáculo formado, assim por membranas que podem tocar-se e influenciar-se, sem, contudo, perderem sua identidade e função. Desta maneira, tais camadas podem ser ajustadas, sobrepostas, intercaladas e [com]fundidas por meio da ferramenta essencial do teatro: o jogo.

O campo da ficção compõe-se do texto transformado de Ibsen e fragmentos de contos e poesias. Nessa camada o público se torna personagem chave para muitos diálogos. Essa construção não pede necessariamente a participação das pessoas, mas sim, uma visualização diferenciada; brinca com a imaginação do espectador que pode acabar se vendo na cena. A realidade refere-se a dramaturgia pessoal dos artistas envolvidos no projeto. Histórias de vida e inventadas confundem-se com a realidade que invade a cena, o estatuto da ficção é cindido e a convenção do real de fato e do simulacro é embaralhada. A camada da atuação diz respeito ao próprio ofício da atriz, sua performance e as composições para a cena. Promove-se a revelação de procedimentos da construção; vemos em cena um modelo em escala das dinâmicas de criação de imagens. De forma que o palco é tomado por pentimentos (os já mencionados arrependimentos da obra de arte).

Encenação

A encenação traz um espetáculo que dança os erros das atrizes e expõe as inúmeras tentativas antes de se encontrar a “cor” exata. O pentimento é uma reflexão tardia no curso do trabalho que um artista faz, mascarando a versão anterior que não está satisfeito. Essas mudanças são muitas vezes escondidas na pintura com várias camadas de cor, as vezes visíveis a olho nu. Além do interesse de reconstruir o processo criativo, o pentimento também é uma ferramenta fundamental para descobrir se uma obra é original ou não; somente um original tem “arrependimentos”, nunca cópias.

O espetáculo utiliza recursos estilísticos da cena contemporânea. Assim, por estar em sincronia com o discurso atual das artes cênicas, o aspecto diacrônico da composição pode emergir. Não apenas as imagens atualizadas, mas seus aspectos ancestrais, portanto perenes, encontram terreno propício sobre o qual vicejar. A própria percepção do tempo, sua compressão e/ou dilatação convive pari passu com aquilo que é histórico. O vetorial e directum da experiência cotidiana do tempo e suas durações dá vez ao cíclico, ao expandido, ao inusitado.

Uma peça de teatro pode ser o que quisermos que seja, basta que nos entreguemos ao jogo. A mágica desta expressão da Arte reside justamente neste truque simples, porém sempre eficiente da auto-sugestão. O próprio espectador cria as partes mais sensíveis daquilo que supõe ver em cena; seja tal olhar voltado para o infinitesimal, para a nuance mais particular; seja para as estrelas, para aquilo que de tão grande sustenta toda a ideia de mundo - como na alegoria da lupa e do telescópio.

Sobre a trilha sonora

A música, composta pela cantora e musicista Kika, foi criada a partir do processo de “pentimentos” com variações sobre o mesmo tema e camadas sobrepostas. Ela envolve o espaço e remete ao tempo cíclico e eterno. Com uma melodia de piano que sofre interferências de outros sons, riscando a harmonia, temos a sensação de uma trilha de sonho e suspense, na qual nada se conclui, tudo está em constante construção, tudo permanece em suspensão. Portanto, uma trilha sonora que dialoga o tempo todo com o estado das atrizes em cena e conta parte da história.

Sobre o figurino

O figurino evoca a personagem Nora, de Ibsen. Também suscita imagens de bailarinas, de festas, de casamentos, e outras circuntâncias nas quais o feminino é associado a leveza e brandura. Vestidos simples, mas com uma renda transparente que pode ter inúmeras leituras para o espectador. Foi criado e desenhado pelas próprias atrizes inspirados em espetáculos da coreógrafa Pina Bausch.


SERVIÇO
Teatro Pequeno Ato - Rua Teodoro Baima, 78
Sábados, às 21h e domingos, às 19h.
De 1º de novembro a 30 de novembro.
indicação: 12 anos
duração: 75 minutos
Preço: R$30 ( inteira) R$ 15 (meia/ classe, estudantes e aposentados)
*não aceita cartão
Michael Maysson

Fonte:Pombo Correio Assessoria de Imprensa