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"Abnegação"

Publicada em : 23/09/2014

Com entrada franca, montagem do grupo Tablado de Arruar cumpre temporada na Oficina Cultural até 11 de outubro

Caca_Bernardes
A Oficina Cultural Oswald de Andrade – unidade da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, gerenciada pela POIESIS Instituto de apoio à Cultura, à Língua e à Literatura – promove, entre 18 de setembro e 11 de outubro, o espetáculo Abnegação, do grupo Tablado de Arruar. A entrada é franca e as senhas para os ingressos devem ser retiradas com uma hora de antecedência na recepção da unidade. O espetáculo conta com o financiamento do Programa Municipal de Fomento ao Teatro.

O espetáculo aborda as relações de poder no interior de um partido político e radicaliza a proposta de uma encenação minimalista, que vem sendo pesquisada pelo grupo em seus últimos trabalhos. A trama traz cinco personagens ligadas à estrutura do poder, diante de uma situação com dimensões nacionais em que cada decisão poderá gerar consequências catastróficas.

Com dramaturgia de Alexandre Dal Farra, que divide a direção com Clayton Mariano, Abnegação – que rendeu ao autor a indicação ao Prêmio APCA na categoria – radicaliza o trabalho sobre a linguagem, já iniciado no projeto anterior (Mateus, 10, que culminou no prêmio Shell de Melhor Autor para Alexandre Dal Farra). Constituída de diálogos de frases curtas e enxutas, a dramaturgia busca revelar seu verdadeiro conteúdo nas lacunas, no que não é dito.

O artista plástico Eduardo Climachauska assina a direção de arte que trabalha com elementos conceituais. O espaço cênico, todo aparente, vai se transformando à medida que as cenas vão acontecendo. No primeiro ato, dois tablados de madeira remetem a um salão de festas. Em cima deles, uma mesa redonda com toalha vermelha, alguns copos e garrafas de bebidas compõem o ambiente com quatro cadeiras.

Cada tablado possui um sistema mecânico, com roldanas aparentes, que permitem a movimentação dos atores, separando o espaço em duas partes. No segundo ato, um sofá com mesa de centro e cadeira representa a casa de alguns personagens. Ao final, a ação se passa num restaurante japonês com tatame, mesa baixa e parede em papel de arroz.

O ponto de partida da trama é um acontecimento real, mas que, no entanto, não se prende às normas do realismo.  As personagens estão livres em cena para lidar com a situação em que estão inseridas. Para o autor, “não se trata de um processo de improvisação cênica, mas um ponto de partida para a criação de um texto, escrito previamente”.

O trabalho de interpretação transita entre duas polaridades: a construção minuciosa – quase minimalista - das personagens e a improvisação. É explorando a tensão entre estas formas aparentemente contraditórias que os atores podem jogar entre as duas camadas essenciais da peça: o dito e o inaudito, a palavra e as entrelinhas o visível e o invisível.

Também já se torna marca dos diretores o uso da violência que aparece de diferentes formas: desde os excessos de comida, bebida, drogas, passando pela escatologia e a agressividade verbal, até a agressão física. O abuso da violência estabelece uma contradição entre os ambientes pretensamente oficiais, chiques e assépticos e possibilita entrever diferentes facetas dessas relações de poder.

"Mais importante do que os fatos que constituem a trama é a maneira como eles ocorrem. As personagens se encontram em situações-limite e importa mais ver como agem e como se relacionam do que entender as suas histórias pessoais e a narrativa como um todo”, diz Alexandre Dal Farra.

A direção privilegia o texto e a interpretação. Mais importante do que contar uma história é ver como as personagens lidam com aquela situação. “Nosso foco está no ator e na dramaturgia. Isso já é uma marca do nosso trabalho. Durante os ensaios trabalhamos muito com a improvisação, com o jogo em cena e com a concepção de cada personagem. Trazemos o texto e uma ideia geral das características que cada uma daquelas personagens carregam. E assim, vamos criando a atmosfera, o ambiente, a sensação de que alguma coisa está acontecendo, dos conchavos e complôs tão característicos do jogo político”, explica Clayton Mariano.

A ideia surgiu do interesse de Dal Farra pela situação atual do Partido dos Trabalhadores e pela estrutura de relações que ocorrem em um partido tido como de esquerda, porém ligado às mais altas esferas de poder. “Creio que esse lugar singular que o PT ocupa gera um tipo de contradição que influi nos seus integrantes de forma interessante. Embora sejam pessoas profundamente abnegadas, com um passado de militância política, agora estão envolvidos em jogos de poder que contradizem aquilo que inicialmente buscavam. Isso gera uma certa maneira de se relacionar com o poder, a meu ver bastante particular.”

Sobre o Tablado de Arruar

Tendo começado como um grupo de teatro de rua, o Tablado de Arruar tem em seu repertório quatro peças destinadas ao espaço externo (A Farsa do Monumento - 2001; Movimentos para Atravessar a Rua - 2003; A Rua é um Rio - 2005; Helena Pede Perdão e é Esbofeteada - 2010).

Em suas três peças para espaços fechados (Quem Vem Lá - 2008; Os novos Argonautas - 2009; Mateus, 10 - 2012), o Tablado de Arruar vem desenvolvendo uma pesquisa aprofundada de linguagem, sobretudo em dois pontos: a dramaturgia e a interpretação. Esses dois braços fundamentais da pesquisa do grupo tiveram, ambos, o reconhecimento da crítica e do público em Mateus, 10 – culminando nas duas indicações ao Prêmio Shell (texto e ator). Esta pesquisa vem se desenvolvendo desde 2009 (com a preparação de Helena Pede Perdão e é Esbofeteada), a partir da análise de romances e novelas realistas.

Além disso, a dramaturgia tem sido um ponto de contato entre o Tablado de Arruar e diversos outros grupos, nos quais Dal Farra tem trabalhado como dramaturgo, provocador em dramaturgia e orientador, tais quais o Grupo XIX de Teatro, o Coletivo Bruto e a Cia Les Commediens Tropicales, entre outros.

PROJETO ABNEGAÇÃO

Fundado em 2001 em São Paulo, o Tablado de Arruar vem produzindo espetáculos teatrais com foco na pesquisa em dramaturgia, interpretação e ocupação do espaço – a rua ou espaços fechados – como principais elementos que constituem a cena. O grupo foi contemplado pela Lei Municipal de Fomento ao Teatro e recebeu os prêmios Funarte Myriam Muniz, Caravana Petrobras-Funarte e ProAC Circulação, entre outros. Suas peças participaram de importantes festivais nacionais como a Mostra Oficial do Festival de Teatro de Curitiba, o FIT de São José do Rio Preto e o Tempo Festival do Rio de Janeiro. Após “Abnegação”, o Tablado de Arruar dá sequência à sua pesquisa com “Abnegação II – Face Externa”, atualmente em fase de construção.

ESPETÁCULO: ABNEGAÇÃO
Grupo Tablado de Arruar
Dramaturgia: Alexandre Dal Farra
Direção: Alexandre Dal Farra e Clayton Mariano
Direção de Arte: Eduardo Climachauska
Figurino: Melina Schleder
Trilha Sonora: Alexandre Dal Farra
Direção de Produção: Carla Estefan
Elenco: André Capuano, Alexandra Tavares, Carlos Morelli, Vinicius Meloni e Vitor Vieira
Fotos: Cacá Bernardes
Estreia: 18/9 – quinta-feira – 20h
Temporada: 19/9 a 11/10 – quintas, sextas e sábados – 20h
Duração: 135 minutos
Classificação: 14 anos
Local: teatro anexo
40 lugares (retirar senhas com 30 minutos de antecedência na recepção)
Entrada franca.

Oficina Cultural Oswald de Andrade
Rua Três Rios, 363 - Bom Retiro - Cep: 01123-001 - São Paulo – SP
Telefone:(11) 3222-2662/ 3221-4704 |
E-mail: oswalddeandrade@oficinasculturais.org.br
Funcionamento: Segunda a sexta das 9h às 22h e sábado das 10h às 18h
Inscrições: Segunda a sexta das 10h às 21h30 e sábado das 10h30 às 17h30
Acessibilidade: dispõe de rampa de acesso, banheiro adaptado e cadeiras de rodas.
Site: www.oficinasculturais.org.br
Facebook: https://www.facebook.com/OficinasCulturais
Twitter: @OficinaCultural
Obs: Não possui estacionamento

Fonte:POIESIS / Oficinas Culturais