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A Catástrofe do Sucesso

Publicada em : 19/02/2019

Fruto de residência no Instituto Capobianco, a peça estreia dia 8 de março

Bob Sousa
Espetáculo inédito idealizado por Camila dos Anjos e dirigido por Marco Antônio Pâmio une duas peças e artigo do dramaturgo americano Tennessee Williams para compor um registro autobiográfico do autor. O processo de criação e montagem do espetáculo - incluindo tradução, pesquisa de linguagem e ensaios - foi viabilizado pelo Instituto Cultural Capobianco, com curadoria e direção assinadas pela atriz e produtora Fernanda Capobianco. Além da peça, o Capobianco lança na mesma época a publicação Caderno Teatro da Memória, com ensaios de Danilo Santos de Miranda, Denise Weinberg, Kiko Marques, Vinicius Calderoni e Luciano Chirolli, entre outros. O livro, que também tem fotos feitas por Bob Sousa, será doado a instituições

Desde outubro de 2018, o diretor Marco Antônio Pâmio e a atriz Camila dos Anjos, criadora da Episódica Companhia, ocupam o Instituto Cultural Capobianco em uma residência artística que possibilitou o aprofundamento da pesquisa, desenvolvimento de linguagem, tradução de textos, ensaios e montagem da peça A Catástrofe do Sucesso.

Trata-se de uma união das peças Mister Paradise e Fala Comigo Como a Chuva e me Deixa Escutar com o artigo autobiográfico A Catástrofe do Sucesso, todos de autoria do dramaturgo americano Tennessee Williams (1911 – 1983). O espetáculo estreia dia 8 de março, sexta-feira, 20 horas, no Instituto Cultural Capobianco (Rua Álvaro de Carvalho, 97 – Centro). Camila dos Anjos, idealizadora do projeto, também está em cena ao lado do ator Iuri Saraiva.

Com figurino e direção de movimento de Marco Aurélio Nunes, iluminação de Wagner Antônio e trilha sonora de Gregory Slivar, a montagem tem cenário minimalista, criado por Cesar Rezende, e recursos do teatro físico trabalhados por Marco Aurélio Nunes com os atores.

Sobre a residência artística no Capobianco, Pâmio ressalta que a iniciativa possibilitou a verticalização de todos os aspectos que compõem uma montagem cênica. “O fato de termos quase seis meses para ensaiar nos permitiu dedicar cinco semanas inteiras somente ao trabalho de mesa e análise de texto, além de realizar uma pesquisa muito mais aprofundada sobre a obra de Tennessee Williams como um todo, o que seria inconcebível num processo tradicional de montagem”, diz.

Camila dos Anjos complementa que a residência também se destaca por possibilitar que os ensaios ocorram no mesmo lugar em que a peça fará temporada, o que auxilia no ganho de intimidade dos atores com o espaço. “Foi possível conduzir o processo com liberdade e com um tempo ideal para cada etapa”, ressalta a atriz.

A peça marca uma continuidade da parceria de Camila dos Anjos e Marco Antônio Pâmio, que, em 2014, montaram a peça Propriedades Condenadas, união de dois textos curtos de Tennessee Williams: Esta Propriedade Está Condenada e Por Que Você Fuma Tanto, Lily?. Neste novo projeto, a dupla optou po exibir as peças na íntegra e em sequência, entremeadas por trechos do artigo de Williams. Para Pâmio, querer picotar e alternar os textos ou movê-los de outra forma poderia confundir o espectador ou propor um “invencionismo” desnecessário aos escritos de Williams. O artigo está dissolvido em três momentos: no início, entre as duas peças e no final.

Para Pâmio, o maior desafio do projeto foi criar um fio narrativo que fizesse com que
os três textos dialogassem entre si. Durante o processo, a pesquisa do quinteto – formado por Pâmio, Camila, Iuri Saraiva, o assistente de direção Gonzaga Pedrosa e o diretor de movimento Marco Aurélio Nunes – incluiu também o documentário Tennessee Williams: Orfeu do Teatro Americano que, segundo o diretor, é um material fundamental para quem quer se aprofundar na obra de Williams. “Como resultado, chegamos a uma narrativa clara, onde as ideias aparecem de forma a aproximar a plateia do mundo e da cabeça de Tennessee Williams, e não a afastar dele”, diz o diretor.

Camila chegou às peças Mister Paradise e Fala Comigo Como a Chuva e me Deixa Escutar enquanto buscava textos e personagens que fossem projeções autobiográficas das experiências vividas pelo autor. A atriz explica que a obra de Williams se baseia essencialmente nos seus conflitos familiares. Filho de mãe com temperamento instável e extremamente opressora e de um pai alcoólatra e viciado em jogos, o artista também teve que lidar com a internação psiquiátrica de sua irmã Rose, que em seguida foi submetida a um tratamento de lobotomia que a incapacitou pelo resto da vida.

“Das memórias desse ambiente familiar ríspido, Tennessee encontrou inspiração para criar suas personagens e um universo imaginário”, conta Camila. Segundo ela, o artigo A Catástrofe do Sucesso não é apenas um elemento de inspiração, mas sim um recurso dramatúrgico que une os dois textos e serve como base textual para o espetáculo.

Nele, o autor discorre sobre a dificuldade de lidar com a fama e o reconhecimento repentino devido ao sucesso de sua primeira peça, À Margem da Vida. “Nas duas peças as personagens são cheias de camadas e conexões com o artigo A Catástrofe do Sucesso. São personagens que experimentam o desejo de exílio, inadequações e conflitos familiares, questões que eram reais e que Tennessee sublimava na sua escrita”, diz Camila.

Mister Paradise conta a história de um escritor de um único livro de poemas que recebe a visita de uma estudante após anos recluso em seu apartamento; Fala Comigo Como a Chuva e me Deixa Escutar acompanha a trajetória de um casal perturbado que vive um de seus muitos momentos de crise em meio a sua relação disfuncional.

Marco Antônio Pâmio avalia que Tennessee se projeta nas personagens desajustadas que existem nas duas peças. “Só que desta vez as peças são alinhavadas pelo artigo A Catástrofe do Sucesso, em que o autor faz um depoimento contundente sobre sua relação com a fama, as consequências sofridas por quem a tem como objetivo principal na realização artística e de como ela pode se revelar um animal traiçoeiro e implacável”, complementa o diretor.

A cenografia de A Catástrofe do Sucesso é um desdobramento da primeira parceria de Pâmio e Camila em Propriedades Condenadas, onde linhas desenhadas em uma lousa pontuavam os espaços em que ocorriam as ações. Desta vez, Cesar Rezende, que também assinava o cenário da peça anterior, constrói com cordas as figuras que são manipuladas pelos atores para se tornarem portas, janelas, poltronas e demais objetos necessários para a construção das cenas. “Na primeira peça trabalhamos com os desenhos sobre a lousa e agora as cordas aparecem como uma versão em três dimensões dessa linguagem com desenhos”, conta Pâmio.

Para o artista, a simplicidade no cenário, nos figurinos e na iluminação dão ênfase à força dramatúrgica dos textos de Williams. “O discurso desses textos, ainda que escritos entre as décadas de 1930 e 1950, são altamente contemporâneos e especificamente pertinentes ao que vivemos hoje no Brasil”, diz.

Extremamente narrativas, as peças contam com direção de movimento de Marco Aurélio Nunes, que trabalhou uma partitura física minuciosa com os atores, através de um gestual coreográfico e recursos do teatro físico. “Há textos longos que foram reconstituídos com a movimentação proposta pela direção para que tenhamos essa nova camada na peça”, diz Camila.

A Catástrofe do Sucesso – O artigo é um depoimento publicado pelo New York Times em 1947, em que Tennessee revela como o sucesso da noite para o dia de sua primeira peça, À Margem da Vida, o lançou do anonimato para o hall da fama; de como, do precário aluguel de quartos mobiliados em várias regiões do país, ele foi parar em um apartamento de hotel de primeira classe e de quanto esse processo foi surpreendentemente estéril e interferiu diretamente na sua capacidade de criação.

Mister Paradise – Uma garota encontra em um antiquário um livrinho de versos que servia como calço para uma mesa. Encantada com a poesia contida no livro, ela começa a escrever cartas para o autor. Não obtendo resposta, ela decide ir até a residência de Anthony Paradise, o autor do livro, com o objetivo de conhecê-lo e resgatar sua obra esquecida. Há um embate entre eles, pois Mister Paradise é extremamente descrente em relação ao poder que a arte pode exercer na sociedade atual.

Fala Comigo Como a Chuva e me Deixa Escutar – Em um quarto mobiliado na Oitava Avenida de Manhattan, um homem e uma mulher mantêm uma relação distante. A situação em que vivem é precária e sem esperança de mudança. Ele começa a narrar para a mulher o pouco que recorda da noite anterior e propõe uma reaproximação. Para confrontar a solidão de seu presente, a mulher começa a narrar um futuro repleto de situações que não acontecerão. Em sua imaginação ela se registrará sob um nome falso, em um pequeno hotel da costa, onde envelhecerá.


Serviço
Peça – A Catástrofe do Sucesso. Estreia dia 8 de março, sexta-feira às 20 horas, no Instituto Cultural Capobianco. Endereço: R. Álvaro de Carvalho, 97 – Centro. Telefone: (11) 3237-1187. Temporada: Até 28 de abril, sextas e sábados, às 20 horas; e domingos, às 18 horas. Ingressos: R$ 30 (inteira) e 15 (meia). Bilheteria abre 1 hora antes do espetáculo. Classificação indicativa: 14 anos. Duração: 60 minutos. Capacidade: 75 lugares.

Fonte:Arteplural