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Medea Mina Jeje

Publicada em : 28/01/2019

Solo aproxima tragédia grega à memória escravocrata do Brasil na Mooca

Julieta Bacchin
Julieta Bacchin
Entrelaçando o clássico Medeia de Eurípedes e a escravidão no Brasil, o solo Medea Mina Jeje faz circulação por vários locais da cidade de São Paulo com a contemplação da 7ª. edição do Prêmio Zé Renato. A montagem é dirigida por Juliana Monteiro com dramaturgia de Rudinei Borges dos Santos e atuação de Kenan Bernades. A próxima temporada é no Teatro Arthur Azevedo (De 18 de janeiro a 17 de fevereiro), no bairro da Mooca. Entrada Grátis.

O espetáculo, um poema cênico no qual Medea, uma mulher negra escravizada na Vila Rica de Nossa Senhora de Pilar de Ouro Preto, nas Minas Gerais do século XVIII, narra o sacrifício de seu filho Age, é uma releitura do clássico Medeia de Eurípedes.
A dramaturgia de Rudinei Borges dos Santos  é constituída a partir da fricção entre a narrativa polissêmica da Medea negra da Mina Jeje e a leitura da clássica tragédia datada de 431 a.C. Na peça de Eurípedes, a protagonista mata os próprios filhos para se vingar do abandono de Jasão, por quem havia renunciado à própria família e à terra natal.

Em oposição à heroína trágica, em Medea Mina Jeje, a escravizada Medea vê na morte do filho a única libertação possível do sofrimento causado pelo trabalho escravo nas minas de ouro que moveram a economia brasileira colonial durante séculos.
“Medea Mina Jeje é a voz de quem grita, em sussurro, sendo portadora duma confiança sui generis e percepção, mesmo intuitiva, da condição de opressão em que vive. Ela é portadora de uma busca pela liberdade, ainda que a saída para chegar a isso seja o sacrifício do filho”, afirma o dramaturgo Rudinei Borges dos Santos.

“O espetáculo nasceu do desejo de conversar com a minha ancestralidade, de abrir os ouvidos para as vozes de indivíduos livres que foram trazidos para o Brasil como escravos e dar voz aos meus mortos”, afirma o intérprete Kenan Bernardes, também idealizador e produtor geral da peça. “Encontrei na tragédia de Eurípedes e na obra homônima do cineasta italiano Pasolini, o fio disparador que deu origem a esta Medea. Foram quase dois anos de pesquisa e processo que agora oferto ao público como quem deseja entregar um presente a alguém muito estimado."
Para a diretora Juliana Monteiro, a relação entre as obras reverberou em todos os envolvidos no projeto. “A aproximação com determinados aspectos da jornada de Medeia de Eurípedes permitiu aos artistas deste espetáculo traçar uma analogia com sua própria trajetória, o encontro com desejos de reelaborar os próprios caminhos no teatro”, relata.

Mina Jeje
A mina em Ouro Preto (MG), que dá nome ao espetáculo, hoje é uma atração turística. No entanto, é mais do que isso: cicatriz da escravidão que perdurou no Brasil por mais de três séculos e trouxe consequências visíveis até hoje nas mais diversas camadas sociais do país, sobretudo para a população negra.

Muitos escravizados trabalharam nas minas na extração de minérios em Minas Gerais, um dos estados com maior concentração de negros no século XVIII. As condições de trabalho eram extremamente precárias e provocaram a morte de incontáveis vidas naquele período.

Monólogo constituído a partir da fricção entre a narrativa da Medea negra da Mina Jeje e a leitura de Medeia, de Eurípedes. A escravizada Medea vê na morte do filho a única libertação possível do sofrimento causado pelo trabalho escravo.

Atividades Formativas
Além da apresentação do espetáculo Medea Mina Jeje, o projeto realiza uma ação formativa intitulada Diálogos Trágicos - Memórias Ancestrais E Identidades Afrodiaspóricas: Diálogos Atemporais.

Em algumas das sessões, a educadora e pesquisadora do Centro de Estudos Culturais Africanos e da Diáspora da PUC/SP, Liliane Braga, media conversa com o público em torno a reflexões provocadas pelo espetáculo.

Performances negras presentes em celebrações e rituais têm sido historicamente inferiorizadas por sistema educacional e midiático eurocêntrico, que impõem como padrão manifestações culturais pautadas em forma letrada de conhecimento. Tal sistema cria hierarquizações – como o "erudito" e o "popular"; o “mainstream” e o “underground”.

Este diálogo intenciona desnaturalizar ideias que inferiorizam o saber-fazer africano e afro-brasileiro, realizado na injunção entre mente, corpos e sentidos, aproximando-se à experiência sensorial provocada pelo teatro.

Essa ação acontecerá sempre 10 minutos após a apresentação das seguintes sessões:

Janeiro:  18 e 27 (Teatro Municipal Arthur Azevedo);
Fevereiro: 01, 03, 08, 10 e 15 (Teatro Municipal Arthur Azevedo); 22 e 24 (Centro Cultural Vila Formosa);
Março: 01 (Centro Cultural Olido) e 17 (Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes).

SERVIÇO
MEDEA MINA JEJE

Teatro Municipal Arthur Azevedo
De 18 de janeiro a 17 de fevereiro, sexta e sábado, 21h e domingo, 19h
Av. Paes de Barros, 955 – Mooca, São Paulo.
(11) 2605-8007
Julieta Bacchin

Fonte:Renato Fernandes – Assessor de Imprensa/Social Media